Saúde
Proteja sua saúde
Surdez é
o maior risco entre os metalúrgicos. É preciso
denunciar e fiscalizar mais
No
Rio de Janeiro, morre, em média, uma pessoa por dia,
vítima de acidente de trabalho. Este número
se refere apenas aos que têm mais de 15 anos, e com
carteira assinada. Ou seja: contabiliza só os óbitos
ocorridos entre cerca de 40% da população
economicamente ativa do Estado. Os dados são da Previdência
Social.
De acordo com a doutora Fátima Sueli Neto Ribeiro,
coordenadora do Programa Estadual de Saúde do Trabalhador,
o setor campeão de acidentes é o da construção
civil. Entre os metalúrgicos, o maior risco é
a surdez causada por ruídos. E também problemas
ergonômetros (denunciados por dores lombares) devido
à postura do trabalhador em determinadas funções,
e também pelo excesso de peso: algumas tarefas metalúrgicas
são pesadas.
O Programa Estadual de Saúde atua, basicamente, fiscalizando
e notificando as empresas, prestando atendimento ao trabalhador
e capacitando o município para desempenhar as mesmas
atribuições. E age sempre a partir de denúncias,
feitas aos sindicatos ou diretamente junto ao programa.
A doutora Fátima informa que, primeiro, a denúncia
é discutida com o sindicato da categoria. Em seguida,
vai-se à empresa juntamente com outros órgãos,
como engenheiros, especialista em meio ambiente (se necessário)
médico, enfermeiro, psicólogo, sociólogo
e um técnico de segurança. Na empresa, esta
equipe é assessorada pela CIPA, que acompanha toda
a ação de vigilância. Ao final da ação,
interdita-se ou autua-se a empresa. “Não gostamos
de multar”, revela a doutora Fátima. “Entendemos
que isso seria monetarizar o risco, e o que queremos é
melhorar as condições de trabalho”.
A médica (que defendeu em maio passado, na USP, tese
de doutorado sobre a silicose, doença causada por
poeira que acomete os metalúrgicos) diz que, se necessário,
a equipe de saúde volta várias vezes à
empresa, para identificar o problema e a causa. “Geralmente,
a causa é tecnologia obsoleta, ou organização
de trabalho equivocada, ou decorre do tipo de maquinário”.
Nas empresas, também verifica-se como as gerências
tratam a questão da saúde do trabalhador,
e itens como política interna de segurança
e saúde do trabalhador. Dependendo do caso, tenta-se
fazer um convencimento para sanear a causa do problema.
Infelizmente, a solução de todo o processo
costuma demorar, pois os relatórios são detalhistas.
Ao final, “tentamos estabelecer um termo de compromisso,
pactuando inclusive o que não está na legislação”.
Silicose
é outra ameaça
Depois da surdez,
o maior risco que os metalúrgicos correm é
de contrair silicose, doença popularmente conhecida
como “pulmão de pedra”. A inalação
de partículas cicatriza o tecido pulmonar, criando
nódulos. Sua evolução pode causar câncer,
bronquite e tuberculose.
“Meu estudo revela que 60% dos metalúrgicos
correm risco de contrair silicose”, denuncia a doutora
Fátima Sueli. “Como a doença leva em
média trinta anos para aparecer, o diagnóstico
só vem quando o trabalhador está aposentado”.
Daí a necessidade da vigilância permanente.
Nos atestados de saúde demissional, por exemplo,
deve-se estar atento a essa possibilidade. Acontece muito
de, ao ser demitido, não se fazer o exame apropriado
e, quando o trabalhador procura novo emprego, acaba sendo
recusado pelo fato de se constatarem indícios de
silicose e outras doenças pulmonares.
Dicas
para evitar acidentes
A doutora Fátima Sueli diz que, em geral, as denúncias
são muito poucas, diante da quantidade de casos e
de riscos. “É preciso que trabalhadores e sindicatos
entendam seus direitos, e ajudem a nos fazer cumpri-los”.
Ela acrescenta que os sindicatos ainda são vistos
mais sob a ótima financeira, de batalhar por aumento.
“E isto não é apenas uma questão
de salário, mas de cidadania.”
Ela dá alguns conselhos aos dirigentes sindicais:
1 – Toda a
diretoria deve discutir o problema – “todos
precisam entender os direitos”;
2 – Os sindicatos devem proteger
os trabalhadores – estes não podem sentir-se
frágeis, com medo de denunciar e ser demitidos;
3 – A questão da saúde
deve constar das cláusulas de acordos salariais:
coisas como excesso de ruídos, perseguição
pelas chefias (assédio moral) e outras. Ou seja:
valorizar o ser humano na fábrica. “Há
um ditado triste”, diz a doutora Fátima, “de
que metalúrgico bom precisa ter um dedo a menos.
É um absurdo, e não estamos aqui provocando
o desemprego: o que queremos é emprego com saúde”;
4 – Uma vez por ano, deve-se
cobrar a realização de uma Semana de Prevenção
de Acidentes de Trabalho (Sepat).
5 – As comissões internas
de prevenção de acidentes (Cipas) são
protegidas pela legislação. E precisam exercer
sua missão amparadas nesse direito. Por exemplo,
os cipeiros têm direito a uma hora diária apenas
para percorrer as empresas, fiscalizando. Muitos, no entanto,
sob ameaças das chefias, não exigem esta hora.
Sindimetal na luta pela
saúde
O diretor do Sindicato dos Metalúrgicos Jorge Gonçalves,
o Jorginho, desde 1987 atua diretamente ligado ao Departamento
de Saúde da entidade. Para ele, a maioria dos sindicatos
não estruturou de maneira satisfatória este
setor. “É preciso que todos tenham um advogado
especializado em saúde do trabalho, e um médico
e um enfermeiro permanentes”, diz Jorginho. “Quando,
por exemplo, um trabalhador apareça duas vezes no
consultório com o mesmo problema, é preciso
que o especialista, imediatamente, seja capaz de estabelecer
uma relação entre a doença e o tipo
de função que ele exerce.”
Jorginho representa o Sindimetal no Conselho Estadual da
Saúde do Trabalhador (Consest), que se reúne
mensalmente. O Consest avalia denúncias, discute
formas de se gerir programas de saúde, e tem a preocupação
preponderante de atuar na prevenção de acidentes
e doenças ocupacionais. “Muito patrão
acha que os problemas se resolvem com o simples fornecimento
de EPI (equipamento de proteção individual).
Daqui a pouco teremos um astronauta dentro da fábrica,
e não se resolverá o problema, pois devemos
pensar a proteção de forma coletiva, e não
individual”.
O sindicalista denuncia ainda que muitas empresas querem
deixar de pagar insalubridade só porque fornecem
o protetor auricular (para o ouvido). “Ora, as pessoas
podem ficar surdas só pela vibração,
e isso deve ser denunciado pelos trabalhadores e cobrado
pelos sindicatos e órgãos responsáveis.”
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