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Entrevista:
por Claudio Nogueira / fotos Thelma Vidales

Navegar é preciso

A vocação para a política do administrador de empresas Sergio Machado vem da família: seu pai, Expedito Machado, foi ministro de João Goulart e, com o golpe militar, teve que sair do Brasil como exilado político.
Eleito para uma das vagas do Ceará no Senado Federal, em 1994, depois de ocupar a secretaria de governo do Estado, Sergio Machado apoiou a candidatura vitoriosa de Lula para a Presidência da República. Em junho de 2003 assumiu o cargo de presidente da Transpetro. Neste período, a subsidiária da Petrobras saltou do 3º para o 1º lugar entre as empresas do setor de transporte e logística do país. No comando da empresa, Sergio Machado desenvolveu um projeto capaz de reerguer a indústria naval brasileira e recuperar a capacidade de transporte marítimo do Sistema Petrobras, gerando emprego e renda no Brasil.
Sete consórcios e empresas estão pré-qualificados para a futura licitação dos 42 navios que a Transpetro irá encomendar.
Na sessão pública realizada no dia 12 de julho, a Comissão de Licitação anunciou a pré-qualificação das empresas Consórcio Rio Naval (Rio de Janeiro/ RJ), Consórcio Camargo Correa/ Andrade Gutierrez (Recife/ PE), Consórcio Rio Grande (Rio Grande /RS) e Estaleiro Rio Grande (Rio Grande/ RS).
No dia seguinte (13/7), convocada por Sergio Machado, a diretoria da Transpetro, através de um ato de gestão, decidiu ampliar a lista de pré-qualificados, e incluiu três estaleiros do Rio de Janeiro que atenderam aos critérios de capacitação técnica: o Consórcio Keppel Fels/ Brasfels, de Angra dos Reis, o Mauá Jurong, de Niterói e o Eisa, do Rio.
A reunião de diretoria foi convocada pelo presidente da Transpetro logo após o encerramento da sessão pública. Os diretores consideraram que os três estaleiros demonstraram que compreenderam a necessidade de se modernizar e desenvolveram esforços e ações para alcançar o novo paradigma exigido na licitação. Eles estabeleceram parcerias técnicas com estaleiros internacionais, em um esforço de modernização decisivo para a viabilização da meta de revitalização da indústria naval de navios de grande porte.
Relembrando a sua infância no Ceará, Sergio Machado avisa que o sonho de retomar a construção de grandes embarcações no país não é um “barquinho de papel.”

FORJA - O senhor brincava de navio quando era criança?
MACHADO
– Eu gostava de navio de papel, que a gente botava pra descer os açudes. Brincava também com aquelas jangadinhas cearenses, feitas de madeira. Por coincidência, a minha primeira experiência profissional foi com frota pesqueira. Quando me formei aqui no Rio, pela Fundação Getúlio Vargas, fui convidado para trabalhar em algumas multinacionais. Mas preferia trabalhar numa empresa nacional. Meu primeiro emprego foi em Niterói, na fabrica de sardinha Gomes da Costa, que tinha uma pequena frota.

FORJA - Como foi feito o convite para participar da direção da Transpetro e como o senhor dimensiona o desafio que tem pela frente?
MACHADO
- Só se pode aceitar convite se você, primeiro, estiver afinado com o projeto. Nós apoiamos o presidente Lula desde o primeiro turno da campanha presidencial. Segundo, se você estiver motivado pelo desafio, e eu estava motivado pra poder fazer o processo de transformação. Na minha vida nunca fui a nenhum lugar por emprego, eu sempre vou por desafios. Sou movido a desafios. Se eu não acreditar eu não consigo passar. Quem convive comigo sabe disso. Eu sempre trabalhei em três expedientes: um pra dentro, outro pra fora, e outro pra pensar, que senão você vira uma máquina. Você só consegue trabalhar em três expedientes se estiver motivado pela causa, se estiver botando o coração na causa. Desde quando chegamos a Transpetro encaramos muitos desafios. Entendemos desde o primeiro momento o quê representava a empresa de logística, o que ela queria dizer para o Brasil, como era importante para o sistema Petrobras que a gente pudesse ter uma empresa pró-ativa, que pudesse gerar resultados pro sistema. E compreendemos que tínhamos que agir nos locais certos, discutindo tarifas e etc. Nós tínhamos que avançar nessa relação, para que a gente pudesse focar na ação, que é a questão da renovação da frota. Nós estávamos marcados para desaparecer, nossa frota está com 16 anos. Há 20 anos não se encomendava um navio, o último foi entregue em 1996, o Livramento, que levou dez anos para ser construído. Nossos navios não são eternos, eles têm data pra morrer e se apose
ntar.

FORJA - O que significaria para o Sistema Petrobras e para o país o desaparecimento da frota nacional de petroleiros?
MACHADO - Como estamos num momento de mudança e de transformação na legislação mundial, nós que já tivemos quase 50% da movimentação da Petrobras, estávamos reduzidos a 17% e daqui a pouco estaríamos reduzidos a nada. Do ponto de vista do país o domínio dos mares é sinônimo de riqueza e poder. Sobretudo para um país em que 95% do comércio internacional são feitos por navio. Não ter frota própria significa vulnerabilidade. Não ter frota para fazer o transporte de cabotagem significa aumento de custo. Mas não adianta só querer fazer navio, ou construir navios de papel, ou de intenção, porque navio de papel não dá emprego e nem transporta nada. Nós tínhamos que partir pra uma mudança estrutural. A gente compreendeu desde o primeiro momento que um país que tem quase 8.500 km de costa, 42.000 km de rios navegáveis, com a população e PIB concentrados, tem que ter frota própria. Um país que depende 95% de comércio internacional de frota não tem a opção de ter ou não ter navio: tem a opção de ter navio próprio ou navio de terceiros, com as suas conseqüências. Se o navio é de terceiros perdemos autonomia, ficamos dependentes de uma coisa que é fundamental. Porque o valor do produto só acontece quando ele chega ao consumidor, que é quem paga a conta final. Se não somos capazes de levar o produto ao consumidor, podemos ter riquezas naturais imensas, que nada vai adiantar. O Presidente Lula deu o desafio, desde o discurso que fez no Rio, quando se comprometeu com a reativação da indústria de construção naval no Brasil.

FORJA - Em relação ao mercado mundial, como está a indústria naval brasileira?
MACHADO - Temos hoje no Brasil construção naval sim, mas de plataformas e navios de apoio. Não temos a construção de grandes navios. Hoje nós temos na carteira dos estaleiros de todo o mundo 4.460 navios encomendados. Isso representa a capacidade dos estaleiros para dois, três, quatro anos. Esse é um setor que movimenta 70 bilhões de dólares no mundo. No Brasil só tem 24 navios programados, num país que já foi o segundo maior fabricante de navios no mundo. Isso significa o quê? Perda de emprego, perda de economia, perda de competitividade e perda de independência, quando nós temos todas as condições de poder mudar. Esse foi o desafio que a gente percebeu. Quando chegamos aqui tinha um enorme processo de discussão. O problema era só garantia, não se falava em outra coisa. Pensei comigo, será que é isso mesmo? Fui aprofundar. Aí comecei a pensar: só nós da Petrobras temos 110 petroleiros. O país depende 95% de comércio por navio, e só tem 4% de empresas brasileiras, ou seja, há um mercado e há fundo para investimento. Aí são garantias que impedem? Se tiver dinheiro e demanda se faz mais dinheiro, então o quê que está havendo? Viajei pelo mundo, comecei a visitar os estaleiros, fui à Coréia, Japão, Polônia, Espanha e verifiquei onde estava a raiz do problema: fizemos muitos investimentos em estaleiros nas décadas de 50, 60 e 70 e depois paramos. Nossos estaleiros são de segunda geração. O mundo está passando da quarta para a quinta geração de estaleiros. O mundo constrói navios de sete a 12 meses, nós construímos de 24 a 30 meses. Nosso custo de produção é maior. Se o navio aqui é mais caro, ninguém vai fazer navio aqui. Se o navio é mais caro o armador brasileiro não tem como competir. E aí nós fomos esvaziando por uma questão política. Esse governo resolveu modificar.

FORJA - Como a Transpetro montou a equação competividade x tecnologia, que resultou na encomenda dos 22 navios nesta primeira fase do processo?
MACHADO - Fomos discutir isso, sem fazer um projeto fechado, enclausurado, como sábios. Fomos discutir com os trabalhadores, com os empresários, com o governo, mostrando que ou a gente se juntava para mudar esse paradigma, ou não adiantava. A gente era capaz de estabelecer um novo paradigma e aí tinha que mudar. Recentemente dei uma entrevista em que me perguntaram: “por que não faz só quatro navios? Era muito mais fácil fazer de quatro em quatro...”. Eu disse: “olha, quem me orientar pra fazer de quatro em quatro não quer que o Brasil tenha indústria de construção naval, quer manter o status quo”. Se eu estou na segunda geração e o mundo está na quarta para a quinta, eu só vou empatar esse jogo se eu me modernizar. Ninguém vai investir em quatro navios. Ninguém vai investir sem ter garantia do pedido. Não vai mesmo. E aí o Brasil fica como eles (os estrangeiros) queriam, sem nunca ter navio. Ninguém vai fazer um navio onde não tem custo, onde não é competitivo. Só investe se tiver demanda de longo prazo. Quando eu estava na Coréia, sentado numas mesas enormes, com altos executivos, começavam a discutir “o Brasil tem potencial”, e tal, daí eu falei: “nosso problema não é dinheiro não. Nós temos dinheiro e temos demanda, nós queremos é tecnologia para ficarmos competitivos”. Aí me falaram: “mas vocês jamais vão poder fazer direto no Brasil. Vamos começar os navios aqui, depois a gente vai avançando...”. Mas aí eu disse “não, o nosso propósito, o propósito do governo é fabricar no Brasil. Se vocês vierem vão ter a oportunidade de uma nova opção de indústria naval que está surgindo no mundo; se não, um dia vocês vão tomar conhecimento da gente. Nós vamos fazer com vocês ou sem vocês.” Era cada briga na mesa... Nós estávamos tímidos no nosso objetivo. Conversamos aqui no Brasil e os trabalhadores entenderam rapidamente essa questão, foram parceiros importantíssimos. Os empresários também entenderam que tinham que mudar.

FORJA - A partir deste entendimento o processo deslanchou?
MACHADO - Isso mesmo. Nós conseguimos atrair para esse certame 11 grupos. Dos oito maiores estaleiros do mundo, que não vinham para o Brasil de jeito nenhum, seis estão aqui, se associando a empresas brasileiras. De forma que possa fazer surgir, a partir daí, uma indústria de construção naval. Então nós temos dinheiro, temos demanda e é estratégico para o país. É fundamental para dar emprego. Só nessa primeira fase dos 22 navios nós vamos gerar vinte mil empregos. Segundo os economistas são 80, 100 mil pessoas que vão passar a ter o seu sustento fruto do suor do seu trabalho. O Brasil vai ficar independente e passará a ter o controle sobre o principal meio de transporte, ou quase absoluto meio de transporte, e que hoje é um oligopólio dos países que controlam 50% do comércio mundial e têm 72% da frota. Por quê? É só pelo negócio dos navios? Não. É pela independência, é pela competição. Na Vale (do Rio Doce), há um ano e pouco atrás, o frete representava 25% do custo do minério. Hoje, representa mais de 140%.

FORJA – O ato de gestão da diretoria não mudou as regras da licitação?
MACHADO - Não. O julgamento da Comissão de Licitação foi absolutamente perfeito, porque aplicou todos os critérios estabelecidos no Edital. Mas, como gestor, tenho a obrigação de buscar o melhor resultado para a empresa, para os acionistas e para o país, dentro do que a lei determina. Temos que praticar todos os atos considerados necessários para obter as melhores opções e condições para a realização dos nossos projetos. O ato de gestão está em sintonia com o firme propósito de contribuir com o renascimento de uma indústria de construção de grandes navios forte e competitiva. Mas o ato de gestão só poderia ser praticado no caso de haver a habilitação técnica das empresas. Por isso, resolvemos incluir estaleiros que, circunstancialmente, não atenderam aos critérios econômico-financeiros do Edital de Pré-qualificação, mas que atingiram a habilitação técnica. Não poderíamos ser omissos. A decisão foi um ato de coragem, que colocou em primeiro plano os interesses da empresa, dos sócios e do país. Era o meu papel como gestor. Caso contrário, estaríamos abrindo mão de empresas muito boas, inclusive uma que ficou em segundo lugar no quesito técnico (Keppel Fels/Brasfels). As três empresas (Keppel Fels/ Brasfels, Mauá Jurong e Elisa) foram incluídas nos grupos para os quais se habilitaram tecnicamente. Nesses grupos, elas pontuaram acima do mínimo fixado no Edital. Essa decisão não elimina o critério econômico-financeiro, porque todos os sete grupos e empresas pré-qualificados terão que apresentar garantias econômico-financeiras, comprovar sua capacidade financeira, quando forem convidados a apresentar as suas propostas comerciais para a licitação.

FORJA - Qual serão os próximos passos da licitação?
MACHADO - O cronograma de entrega dos navios só será apresentado no futuro edital de licitação, mas a expectativa é de que, até o fim do segundo semestre de 2006, o primeiro navio esteja no mar. A questão do prazo de construção será um item importante da licitação. Quem oferecer menor prazo de construção terá vantagem. A Transpetro precisa de navios urgentemente. Queremos comprar navios com qualidade, preços e prazos internacionalmente competitivos.
É importante lembrar que, na futura licitação, o jogo ficará zerado. Todos os sete concorrentes estarão em igualdade de condições. Na licitação, serão considerados custo e prazo. Não queremos pagar mais do que preço de mercado. E também não adianta a empresa entregar o navio daqui a 10 anos.

FORJA - Sempre foi um sonho da sociedade brasileira retomar essa questão da indústria naval. A licitação que está em andamento é uma delas, além de alguns acordos de desenvolvimento tecnológico. O senhor pode falar um pouco mais sobre isso?
MACHADO - O que eu acho importante é o avanço cultural que a gente fez. O discurso dos trabalhadores, a consciência dos empresários, qualquer discussão que se tem hoje é travada em outro nível. Ninguém tem dúvida de que nós vamos fazer ressurgir a indústria naval no Brasil. Nossa intenção não é só construir navios, não é fazer um sonho de verão, um barquinho de papel, ou que se esgote como uma bolha, fazer quatro, cinco navios e acabou. Eu quero a indústria. Para isso temos que juntar empresários dispostos a investir em tecnologia, em modernização, em pessoal. Se ele não está disposto a fazer isso, ele não vai mudar, vamos continuar na segunda geração e não vamos ser competitivos.
Além disso, é preciso ter o quê? Tecnologia. Nós procuramos o ministro (de Ciência e Tecnologia) Eduardo Campos e assinamos um convênio. Procuramos as universidades que tem setor naval, como a Coppe (UFRJ), e a USP. Ainda estamos procurando outras universidades que queiram integrar esse programa e estamos fazendo esse ano um investimento em tecnologia de 30 milhões de reais para desenvolver o setor naval no Brasil. Pra quê? Todo setor de sucesso no Brasil tem um centro tecnológico por trás. É assim na EMBRAER com o ITA (Instituto de Tecnologia da Aeronáutica), é assim no setor de agrobusiness com a EMBRAPA, foi assim com a nossa Petrobras e o CENPES. Quando a gente começou ninguém acreditava que tinha petróleo no Brasil. Diziam que o país não era viável. Então desenvolvemos tecnologia, exploramos petróleo em terra, no mar... Começamos a retirar petróleo a 17 metros de profundidade, agora estamos explorando a 3 mil metros. Esse ano, devemos chegar a auto-suficiência e dentro em breve o Brasil vai começar a exportar.
Teremos uma independência energética que poucos países no mundo têm. Vamos começar a exportar petróleo dentro em pouco, temos etanol para exportar, temos biomassa para exportar, temos tecnologia hidráulica, temos 12% da água doce do mundo. Então o Brasil entra com energia, com água, numa perspectiva fantástica. Por quê? Porque o brasileiro não se acomodou. Porque o brasileiro não foi seguir conselho dos outros, porque o brasileiro teve a audácia de mudar a regra do jogo. E é isso que nós vamos fazer no setor naval.

FORJA - Como o senhor avalia a participação dos trabalhadores e dos demais segmentos na elaboração da proposta da Transpetro?
MACHADO - Primeiro a gente teve que discutir. Eu não ia poder mudar a cultura, contribuir com a política do governo Lula se ficasse aqui na Transpetro, sentado, fechado, teorizando. Esse é um processo de mudança e, por isso, tem que ter participação. Então fizemos reuniões com BNDES, Petrobras, Ministério de Minas e Energia, de Desenvolvimento, e chegamos às conclusões. Foi um processo sinérgico de avanço. O que eu pensava inicialmente foi avançando, o que os outros pensavam foi avançando e fizemos um processo de buscar o melhor para o Brasil.
Mas como não tínhamos nenhuma indústria no Brasil em condições de fabricar navios de grande porte, competitivos, a gente tinha que criar. O modelo de edital foi fruto de diversas mãos que participaram desse processo. Mas aí percebemos que a gente só ia mudar se tivesse pedidos de grande porte, para dar sustentabilidade e visão de longo prazo. Então enfrentamos o paradigma da quantidade, pensamos muito mais do que três ou quatro navios. O governo compreendeu, a Petrobras compreendeu.
O segundo ponto é: como não tínhamos nenhuma indústria em condições de ser competitiva, nós teríamos que dar chance a todos, pra quem quisesse investir, aonde quisesse investir. Para nós era importante que fosse feito no Brasil. Quem vai definir “onde” é quem estiver disposto a atender os pré-requisitos: fabricar no Brasil e ser competitivo em nível internacional. Houve algumas resistências, o que faz parte do jogo. O velho líder mundial Mao-Tsé-Tung já dizia que se uma idéia nova não enfrenta oposição, alguma coisa está errada. E nós queríamos fazer uma transformação profunda, por isso chegamos a esse modelo.

FORJA - E como esse modelo de licitação pode ajudar na retomada do setor naval? Já se fala em encomendas de navios de grande porte também de outros países?
MACHADO
- Fizemos primeiro uma pré-qualificação, na qual as empresas iriam mostrar capacidade financeira, capacidade tecnológica e o local em que iria construir os navios, quais as instalações que teriam. Com essa pré-qualificação a pessoa tem que demonstrar vontade e capacidade de poder chegar. Isso tanto faz para os novos ou para os antigos estaleiros, como os do Rio. Agora, o empresário tem que demonstrar explicitamente que quer isso, que quer chegar, senão não vamos ter indústria no Brasil. Então quem tem as instalações tem muito mais vantagem.
Onze grupos apresentaram proposta, dez estão na disputa, e estamos selecionando quem é que apresentou proposta suficiente para garantir a competitividade. Na segunda etapa os pré-qualificados serão convidados para definir sua proposta técnico-financeira. Quer dizer, quanto vai custar cada navio, qual é a curva de aprendizado, quem chega primeiro ao melhor preço e quem faz o navio primeiro. Quem é que vai ganhar o certame? Quem apresentar as melhores condições para a Transpetro, e mostrar que vai entrar nesse processo. Com isso nós conseguimos criar as indústrias de construção naval de forma permanente no Brasil. E no futuro os estaleiros brasileiros vão poder correr atrás de outras encomendas.
A Venezuela está querendo vir para o Brasil. Por que não veio antes? Porque não era competitivo no preço. Eu não vou comprar navio no Brasil porque é mais caro e leva mais tempo. Na hora que a gente abriu a organização desse processo, a PDVSA (empresa de petróleo venezuelana) já pensou em fazer 36, 38 navios. Depois disso virão os italianos, alemães... Porque hoje os estaleiros do mundo todo estão com três, quatro anos de carteira. Então logo que moderniza, na hora em que a gente fica competitivo, vão aparecer vários navios.
Nós vamos dar muito emprego no Brasil para fazer navio para exportação. É o objetivo. Nós não queremos que a indústria naval ressurja só para atender o mercado brasileiro. Vai ter que atender o mercado nacional e a exportação, pra que possa gerar emprego, possa ser competitivo, possa avançar. Nós temos também a questão da cabotagem interna. Na matriz de transporte brasileiro hoje o transporte aquaviário é de apenas 13%. E a gente sabe que o transporte por caminhão só é viável economicamente até 300 km. Só que se olharmos o transporte de líquidos e grãos no Brasil, o movimento por caminhão responde por 95% do total. Isso significa que o produto brasileiro fica mais caro, porque estamos usando a matriz de transporte errada. Por isso eu tenho certeza de que o governo vai repensar, vai avançar nosso sistema ferroviário, o aquaviário, vai explorar nosso potencial de transporte através dos nossos rios, de forma que seja possível fazer essa mudança de cultura, de participação que nós estamos vendo.

FORJA - O setor naval gera uma grande expectativa de crescimento da oferta de emprego, não só no setor, mas numa gama de outros setores ligados a indústria naval. Quantos empregos devem ser gerados com a iniciativa da Transpetro?
MACHADO
- Nossa grande dúvida é: não queremos uma bolha, não queremos um projeto de papel. Nós queremos um projeto sustentável, queremos que essa criança nasça robusta. O que vai dar a garantia é o resto. Temos que ser modernos, ter tecnologia, pessoal qualificado e empresários com mentalidade aberta para reconstruir um setor que se sustente. Para isso estamos investindo em tecnologia.
Só na primeira fase estamos garantindo 20 mil novos empregos. Hoje não há nenhum brasileiro trabalhando na construção de grandes navios, até porque não se constrói um grande navio no Brasil desde 1996. Vamos criar um novo setor, com uma perspectiva enorme. Não estamos falando de mercado futuro. O setor naval tem hoje em carteira 4.460 navios em todo o mundo. Só que o Brasil ainda não faz parte desse mundo, concentrado na Coréia, no Japão, na China, na Polônia... Aí a gente se pergunta: será que o brasileiro desaprendeu a fazer navio? Será que aquela geração que em 70 era vice-campeã mundial morreu e a gente não tem mais condições? O que faltava era a vontade, a decisão. Agora tem. Tem decisão política, tem demanda, tem dinheiro e tem a sociedade, os trabalhadores e empresários, que estão prevendo que é hora de mudança. Isso é o que vai assegurar a continuidade, que vai assegurar que nós vamos criar um setor que vai dar emprego para os atuais metalúrgicos, marítimos, químicos e engenheiros.
Seguindo essa estrada, o caminho também vai dar emprego para os filhos e netos deles. Vai garantir ao Brasil uma vantagem comparativa e estratégica num setor que é vital para um país que tem uma localização geográfica como o Brasil. Se eu não sou proprietário dos navios, se o navio é de outro país, se por acaso tiver falta, confusão ou interesses econômicos, nós podemos até ficar sem navio. E se ficarmos sem navio abriremos mão de 95% do nosso comércio mundial, porque não teremos autonomia. O quê, então, que vai garantir a continuidade, que não seja só uma chuva de verão, que não seja um emprego só durante a colheita? É a nossa capacidade, nossa consciência, de empresários, dos trabalhadores, do governo, de que nós temos que criar um setor competitivo.
Ouvi do nosso Presidente Lula exatamente isso. Ele quer é que se forme uma indústria de construção naval permanente. Ele quer a construção de grandes navios nesse governo e nos governos futuros. Porque essa indústria é importante para o Brasil, e é isso que nós temos que fazer.

FORJA - Então, o Brasil pode recuperar sua posição na industria de construção naval mundial, a partir das encomendas da Transpetro?
MACHADO
- A Hyundai, por exemplo, fabricou ano passado 123 navios. Quando nós éramos atletas fortes, participantes da disputa do campeonato mundial de navios, essa empresa não existia, ela só foi fundada em 1973. Quando ela nasceu o Brasil já era vice-campeão mundial de navios. Hoje essa empresa tem uma carteira de mais de 500 navios e nós não existimos. Mas como nós temos vocação e necessidade, além de sermos bons atletas, acredito que vamos recuperar nossa posição.

FORJA – Como o senhor avalia o apoio dos trabalhadores a este processo de retomada?
MACHADO
- Importantíssimo. A conscientização dos trabalhadores foi fundamental para que a gente pudesse romper com a inércia, romper com aqueles que não queriam a mudança de paradigma. O que o trabalhador consciente quer, e graças a Deus eles são hoje a maioria, é a estabilidade, a perspectiva, a continuidade do emprego. E isso só vai acontecer no mundo de hoje se formos competitivos. O Brasil está chegando a essa condição. Com que orgulho a gente não anda pelo Brasil e pelo mundo vendo os aviões da EMBRAER nos aeroportos? Ouvindo a aeromoça falar “avião da EMBRAER modelo tal...”. Nosso ego vai lá em cima. Aí a gente sai desse orgulho todo com os aviões e vai ver o Porto do Rio, o Porto de Fortaleza, o Porto de Santos... Não vê navio fabricado no Brasil nem vê navio com bandeira brasileira. A gente vê nosso dinheiro indo embora, são oportunidades perdidas.
Queremos criar um negócio permanente, competitivo, porque sem isso não tem continuidade. Criaríamos uma falsa perspectiva para o trabalhador e para o investidor. Nós não podemos mais desperdiçar recursos. Nem humano e nem financeiro. Temos que entrar no campeonato para valer, para ganhar, para chegar ao pódio. Temos condição, tecnologia, dinheiro, demanda, sociedade consciente e uma vontade política muito grande de fazer isso.
Fico muito feliz de ter tido a compreensão de vocês trabalhadores. Quando eu recebi aquela homenagem no sindicato fiquei muito honrado. Vocês não estão me dando uma placa por que fiz os navios, é um reconhecimento da direção de um sindicato por onde passou Jango, Lula, Juscelino, um sindicato que sempre esteve atrelado à coragem e ao desafio do desenvolvimento, do crescimento, da geração de empregos. Isso significa um objetivo comum de desenvolver o Brasil. E é disso que o país precisa, dessa coragem, desse pensar grande.

FORJA - Nós temos uma preocupação central com o início das obras. Quando que efetivamente isso vai acontecer?
MACHADO
- Nós esperamos concluir o processo para em setembro os estaleiros começarem a ser contratados. Nós queremos ver no segundo semestre do ano que vem o primeiro navio flutuando. Agora, queremos que flutue de forma permanente. Isso só foi possível por causa do apoio da sociedade e da ajuda decisiva dos trabalhadores para que a gente pudesse romper o paradigma.
Houve um grande embate de idéias nesse ponto. De certa maneira isso faz parte da democracia, não tenho nenhuma pretensão de ser o dono da verdade. Para o futuro teremos a encomenda dos outros 20 navios. Teremos também outras possibilidades enormes. O Brasil pode começar a exportar petróleo e, com isso, vai precisar de mais navios. O etanol, com o advento do Tratado de Kioto, é uma outra possibilidade. Temos também para exportar a biomassa, o biodiesel...são muitas oportunidades que nós temos para o crescimento. Nós temos que usar então essa vantagem comparativa na produção sem perder a visão de que precisamos satisfazer nossa demanda interna e atender o mercado externo. A Transpetro tem hoje 47 navios, 10.000 km de dutos e 43 terminais. Precisamos, como empresa de logística dentro do sistema Petrobras, garantir a segurança, o meio-ambiente e a competitividade. Faremos investimentos em dutos, transporte de etanol, biomassa, gás que o Brasil descobriu agora, e com isso gerar riqueza, emprego, competitividade e independência para o país.

FORJA - O programa também é essencial para o Sistema Petrobras?
MACHADO
- Certamente. O programa da Transpetro está alinhado à política do governo, ao desafio do Presidente Lula, ao BNDES, a Petrobras. A vantagem disso é que nós vamos dar autonomia ao país, vamos gerar empregos e vamos aumentar o lucro do sistema Petrobras, que está sendo transferido pra fora. Hoje estamos alugando 60 navios. Isso mostra que podemos realizar a boa política industrial, aumentando o lucro, a competitividade do país e com isso, gerar emprego. Queremos fabricar no Brasil com qualidade e preço de nível internacional. Usar nossa demanda para poder permitir que esse processo aconteça. Podemos economizar para o Brasil uma boa parte dos dez bilhões que hoje a gente paga de transporte marítimo. O ministro (Antônio) Palocci ficaria muito feliz, e com isso nós poderíamos fazer o desenvolvimento.

FORJA - Como o senhor vê a participação da indústria fluminense dentro desse projeto nacional?
MACHADO
- Eu vejo uma oportunidade fantástica para o Rio de Janeiro. A indústria fluminense tem toda a condição de ser altamente competitiva. No mundo moderno, ninguém domina nenhum setor por hereditariedade, e sim por competência. O Rio tem toda condição de na indústria naval continuar com competência. Isso faz com que o estado continue numa posição de vanguarda.
O que nós estamos vendo ao longo desse processo de licitação é o Rio se preparando. O Estado trouxe tecnologia de fora para competir. O Rio tem trabalhadores e empresários competentes, pode dar essa competência para o Brasil de fabricar navios a preços competitivos internacionalmente. O Rio tem um papel no desenvolvimento, tem investimentos feitos pela Petrobras, tem siderúrgicas, toda uma potencialidade que está sendo explorada. Até por ter sido a capital, tem uma base humana forte. Eu vejo o Rio com vasto potencial. Agora, depende da vontade. No mundo moderno ninguém é campeão porque “foi”. Quem quiser ser campeão tem que treinar, se preparar, botar os melhores jogadores em campo e ter vontade de ser o melhor. Acho que o Rio tem todas as condições para que isso aconteça.
Nós da Petrobras, da Transpetro estamos garantindo demanda. O governo, via BNDES, dá o dinheiro. Mas nós não queremos substituir ninguém, não queremos fazer estaleiro estatal. Queremos estaleiros privados, que dependem fundamentalmente da vontade dos empresários de poder se modernizar, de poder assumir a mão-de-obra. Eu não posso jamais querer substituir aquilo que é básico, o empreendedorismo do empresário.

FORJA - Vivemos um momento de uma crise política profunda no país. Vemos que há um objetivo de interromper a mudança que começou nesse governo. Estivemos com o Presidente Lula no lançamento da plataforma aqui no Rio e transmitimos nossa solidariedade. Gostaríamos que o senhor, que faz parte desse governo, pudesse passar uma mensagem para os trabalhadores de nossa categoria a respeito disso.
MACHADO
- Nesse momento nós temos a confiança de que o presidente Lula é um homem que tem história, que tem passado e que não tem rabo preso com ninguém. Um homem que vem com toda a determinação de fazer um processo de mudança. E nós temos a perfeita consciência e o desafio de que o que nós queremos é a mudança. Nós queremos um Brasil diferente, queremos avanço, desenvolvimento e crescimento. E entendemos que nosso Presidente será capaz de nos conduzir. Como estamos querendo essa transformação, nós vamos gerar essa sinergia, essa vontade, e atingiremos nosso objetivo, de fazer as mudanças.
Nós já estamos fazendo isso na indústria naval, criando essas condições para o renascimento do setor e eu tenho certeza que esse momento é singular, é muito importante. Na história do mundo, todos os momentos de mudança, de ruptura, de transformação são momentos tensos. Ninguém cria novas coisas achando que vai criar de forma fácil. Mas quando se tem a firmeza de um líder que tenha vontade, as coisas avançam. Eu não tenho dúvida nenhuma que esse nosso projeto de participação geral vai chegar lá, porque estamos segurando com força o leme. Temos um rumo para navegar, e sabemos em qual porto nós vamos chegar. O Brasil vai chegar num porto com justiça social, com desenvolvimento, com reconhecimento e respeito.
Nós não estamos crescendo à custa do fracasso dos outros, mas à custa da nossa competência, da nossa competitividade. Para a gente exportar nossos produtos agrícolas não precisa ter geada em outros países. Porque nossos produtos são competitivos, nosso aço, nossos aviões são competitivos. Nossos navios também serão competitivos. Nossa economia é competitiva e o brasileiro tem condição. É isso que nós vamos mostrar na indústria de construção naval. Por que o coreano tem mais produtividade que brasileiro? Porque ele é melhor que nós? Não, é porque ele tem melhores instrumentos, assim como nós também teremos.
Esse momento é um momento de todos nós darmos as mãos. O que está em jogo é um projeto, é uma possibilidade, é um momento de desenvolvimento. É o momento de construir uma nova estrada. Nós vamos ter que dirigir e construir a estrada ao mesmo tempo. E eu tenho certeza de que nós somos capazes de rasgar essa estrada, que vai fazer com que a maioria dos brasileiros possa trafegar nela. Não vai ser uma estrada para alguns, mas sim uma estrada para a maioria. Esse é o desafio da justiça social, da oportunidade de emprego, de crescimento. A indústria da construção naval é um bom exemplo de que com vontade, com determinação e com coragem é possível transformar, mudar e avançar.


 

 

 

 


 

 

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