Entrevista:
por Claudio Nogueira / fotos Thelma Vidales
Navegar é preciso
A vocação
para a política do administrador de empresas Sergio
Machado vem da família: seu pai, Expedito Machado,
foi ministro de João Goulart e, com o golpe militar,
teve que sair do Brasil como exilado político.
Eleito para uma das vagas do Ceará no Senado Federal,
em 1994, depois de ocupar a secretaria de governo do Estado,
Sergio Machado apoiou a candidatura vitoriosa de Lula para
a Presidência da República. Em junho de 2003
assumiu o cargo de presidente da Transpetro. Neste período,
a subsidiária da Petrobras saltou do 3º para
o 1º lugar entre as empresas do setor de transporte
e logística do país. No comando da empresa,
Sergio Machado desenvolveu um projeto capaz de reerguer
a indústria naval brasileira e recuperar a capacidade
de transporte marítimo do Sistema Petrobras, gerando
emprego e renda no Brasil.
Sete consórcios e empresas estão pré-qualificados
para a futura licitação dos 42 navios que
a Transpetro irá encomendar.
Na sessão pública realizada no dia 12 de julho,
a Comissão de Licitação anunciou a
pré-qualificação das empresas Consórcio
Rio Naval (Rio de Janeiro/ RJ), Consórcio Camargo
Correa/ Andrade Gutierrez (Recife/ PE), Consórcio
Rio Grande (Rio Grande /RS) e Estaleiro Rio Grande (Rio
Grande/ RS).
No dia seguinte (13/7), convocada por Sergio Machado, a
diretoria da Transpetro, através de um ato de gestão,
decidiu ampliar a lista de pré-qualificados, e incluiu
três estaleiros do Rio de Janeiro que atenderam aos
critérios de capacitação técnica:
o Consórcio Keppel Fels/ Brasfels, de Angra dos Reis,
o Mauá Jurong, de Niterói e o Eisa, do Rio.
A reunião de diretoria foi convocada pelo presidente
da Transpetro logo após o encerramento da sessão
pública. Os diretores consideraram que os três
estaleiros demonstraram que compreenderam a necessidade
de se modernizar e desenvolveram esforços e ações
para alcançar o novo paradigma exigido na licitação.
Eles estabeleceram parcerias técnicas com estaleiros
internacionais, em um esforço de modernização
decisivo para a viabilização da meta de revitalização
da indústria naval de navios de grande porte.
Relembrando a sua infância no Ceará, Sergio
Machado avisa que o sonho de retomar a construção
de grandes embarcações no país não
é um “barquinho de papel.”
FORJA - O
senhor brincava de navio quando era criança?
MACHADO – Eu gostava de navio de papel, que
a gente botava pra descer os açudes. Brincava também
com aquelas jangadinhas cearenses, feitas de madeira. Por
coincidência, a minha primeira experiência profissional
foi com frota pesqueira. Quando me formei aqui no Rio, pela
Fundação Getúlio Vargas, fui convidado
para trabalhar em algumas multinacionais. Mas preferia trabalhar
numa empresa nacional. Meu primeiro emprego foi em Niterói,
na fabrica de sardinha Gomes da Costa, que tinha uma pequena
frota.
FORJA - Como foi feito
o convite para participar da direção da Transpetro
e como o senhor dimensiona o desafio que tem pela frente?
MACHADO - Só se pode aceitar convite se
você, primeiro, estiver afinado com o projeto. Nós
apoiamos o presidente Lula desde o primeiro turno da campanha
presidencial. Segundo, se você estiver motivado pelo
desafio, e eu estava motivado pra poder fazer o processo
de transformação. Na minha vida nunca fui
a nenhum lugar por emprego, eu sempre vou por desafios.
Sou movido a desafios. Se eu não acreditar eu não
consigo passar. Quem convive comigo sabe disso. Eu sempre
trabalhei em três expedientes: um pra dentro, outro
pra fora, e outro pra pensar, que senão você
vira uma máquina. Você só consegue trabalhar
em três expedientes se estiver motivado pela causa,
se estiver botando o coração na causa. Desde
quando chegamos a Transpetro encaramos muitos desafios.
Entendemos desde o primeiro momento o quê representava
a empresa de logística, o que ela queria dizer para
o Brasil, como era importante para o sistema Petrobras que
a gente pudesse ter uma empresa pró-ativa, que pudesse
gerar resultados pro sistema. E compreendemos que tínhamos
que agir nos locais certos, discutindo tarifas e etc. Nós
tínhamos que avançar nessa relação,
para que a gente pudesse focar na ação, que
é a questão da renovação da
frota. Nós estávamos marcados para desaparecer,
nossa frota está com 16 anos. Há 20 anos não
se encomendava um navio, o último foi entregue em
1996, o Livramento, que levou dez anos para ser construído.
Nossos navios não são eternos, eles têm
data pra morrer e se aposentar.
FORJA -
O que significaria para o Sistema Petrobras e para o país
o desaparecimento da frota nacional de petroleiros?
MACHADO - Como estamos num momento de mudança
e de transformação na legislação
mundial, nós que já tivemos quase 50% da movimentação
da Petrobras, estávamos reduzidos a 17% e daqui a
pouco estaríamos reduzidos a nada. Do ponto de vista
do país o domínio dos mares é sinônimo
de riqueza e poder. Sobretudo para um país em que
95% do comércio internacional são feitos por
navio. Não ter frota própria significa vulnerabilidade.
Não ter frota para fazer o transporte de cabotagem
significa aumento de custo. Mas não adianta só
querer fazer navio, ou construir navios de papel, ou de
intenção, porque navio de papel não
dá emprego e nem transporta nada. Nós tínhamos
que partir pra uma mudança estrutural. A gente compreendeu
desde o primeiro momento que um país que tem quase
8.500 km de costa, 42.000 km de rios navegáveis,
com a população e PIB concentrados, tem que
ter frota própria. Um país que depende 95%
de comércio internacional de frota não tem
a opção de ter ou não ter navio: tem
a opção de ter navio próprio ou navio
de terceiros, com as suas conseqüências. Se o
navio é de terceiros perdemos autonomia, ficamos
dependentes de uma coisa que é fundamental. Porque
o valor do produto só acontece quando ele chega ao
consumidor, que é quem paga a conta final. Se não
somos capazes de levar o produto ao consumidor, podemos
ter riquezas naturais imensas, que nada vai adiantar. O
Presidente Lula deu o desafio, desde o discurso que fez
no Rio, quando se comprometeu com a reativação
da indústria de construção naval no
Brasil.
FORJA - Em relação
ao mercado mundial, como está a indústria
naval brasileira?
MACHADO - Temos hoje no Brasil construção
naval sim, mas de plataformas e navios de apoio. Não
temos a construção de grandes navios. Hoje
nós temos na carteira dos estaleiros de todo o mundo
4.460 navios encomendados. Isso representa a capacidade
dos estaleiros para dois, três, quatro anos. Esse
é um setor que movimenta 70 bilhões de dólares
no mundo. No Brasil só tem 24 navios programados,
num país que já foi o segundo maior fabricante
de navios no mundo. Isso significa o quê? Perda de
emprego, perda de economia, perda de competitividade e perda
de independência, quando nós temos todas as
condições de poder mudar. Esse foi o desafio
que a gente percebeu. Quando chegamos aqui tinha um enorme
processo de discussão. O problema era só garantia,
não se falava em outra coisa. Pensei comigo, será
que é isso mesmo? Fui aprofundar. Aí comecei
a pensar: só nós da Petrobras temos 110 petroleiros.
O país depende 95% de comércio por navio,
e só tem 4% de empresas brasileiras, ou seja, há
um mercado e há fundo para investimento. Aí
são garantias que impedem? Se tiver dinheiro e demanda
se faz mais dinheiro, então o quê que está
havendo? Viajei pelo mundo, comecei a visitar os estaleiros,
fui à Coréia, Japão, Polônia,
Espanha e verifiquei onde estava a raiz do problema: fizemos
muitos investimentos em estaleiros nas décadas de
50, 60 e 70 e depois paramos. Nossos estaleiros são
de segunda geração. O mundo está passando
da quarta para a quinta geração de estaleiros.
O mundo constrói navios de sete a 12 meses, nós
construímos de 24 a 30 meses. Nosso custo de produção
é maior. Se o navio aqui é mais caro, ninguém
vai fazer navio aqui. Se o navio é mais caro o armador
brasileiro não tem como competir. E aí nós
fomos esvaziando por uma questão política.
Esse governo resolveu modificar.
FORJA - Como a Transpetro
montou a equação competividade x tecnologia,
que resultou na encomenda dos 22 navios nesta primeira fase
do processo?
MACHADO - Fomos discutir isso, sem fazer
um projeto fechado, enclausurado, como sábios. Fomos
discutir com os trabalhadores, com os empresários,
com o governo, mostrando que ou a gente se juntava para
mudar esse paradigma, ou não adiantava. A gente era
capaz de estabelecer um novo paradigma e aí tinha
que mudar. Recentemente dei uma entrevista em que me perguntaram:
“por que não faz só quatro navios? Era
muito mais fácil fazer de quatro em quatro...”.
Eu disse: “olha, quem me orientar pra fazer de quatro
em quatro não quer que o Brasil tenha indústria
de construção naval, quer manter o status
quo”. Se eu estou na segunda geração
e o mundo está na quarta para a quinta, eu só
vou empatar esse jogo se eu me modernizar. Ninguém
vai investir em quatro navios. Ninguém vai investir
sem ter garantia do pedido. Não vai mesmo. E aí
o Brasil fica como eles (os estrangeiros) queriam, sem nunca
ter navio. Ninguém vai fazer um navio onde não
tem custo, onde não é competitivo. Só
investe se tiver demanda de longo prazo. Quando eu estava
na Coréia, sentado numas mesas enormes, com altos
executivos, começavam a discutir “o Brasil
tem potencial”, e tal, daí eu falei: “nosso
problema não é dinheiro não. Nós
temos dinheiro e temos demanda, nós queremos é
tecnologia para ficarmos competitivos”. Aí
me falaram: “mas vocês jamais vão poder
fazer direto no Brasil. Vamos começar os navios aqui,
depois a gente vai avançando...”. Mas aí
eu disse “não, o nosso propósito, o
propósito do governo é fabricar no Brasil.
Se vocês vierem vão ter a oportunidade de uma
nova opção de indústria naval que está
surgindo no mundo; se não, um dia vocês vão
tomar conhecimento da gente. Nós vamos fazer com
vocês ou sem vocês.” Era cada briga na
mesa... Nós estávamos tímidos no nosso
objetivo. Conversamos aqui no Brasil e os trabalhadores
entenderam rapidamente essa questão, foram parceiros
importantíssimos. Os empresários também
entenderam que tinham que mudar.
FORJA - A partir deste entendimento
o processo deslanchou?
MACHADO - Isso mesmo. Nós conseguimos
atrair para esse certame 11 grupos. Dos oito maiores estaleiros
do mundo, que não vinham para o Brasil de jeito nenhum,
seis estão aqui, se associando a empresas brasileiras.
De forma que possa fazer surgir, a partir daí, uma
indústria de construção naval. Então
nós temos dinheiro, temos demanda e é estratégico
para o país. É fundamental para dar emprego.
Só nessa primeira fase dos 22 navios nós vamos
gerar vinte mil empregos. Segundo os economistas são
80, 100 mil pessoas que vão passar a ter o seu sustento
fruto do suor do seu trabalho. O Brasil vai ficar independente
e passará a ter o controle sobre o principal meio
de transporte, ou quase absoluto meio de transporte, e que
hoje é um oligopólio dos países que
controlam 50% do comércio mundial e têm 72%
da frota. Por quê? É só pelo negócio
dos navios? Não. É pela independência,
é pela competição. Na Vale (do Rio
Doce), há um ano e pouco atrás, o frete representava
25% do custo do minério. Hoje, representa mais de
140%.
FORJA – O ato de gestão
da diretoria não mudou as regras da licitação?
MACHADO - Não. O julgamento da Comissão
de Licitação foi absolutamente perfeito, porque
aplicou todos os critérios estabelecidos no Edital.
Mas, como gestor, tenho a obrigação de buscar
o melhor resultado para a empresa, para os acionistas e
para o país, dentro do que a lei determina. Temos
que praticar todos os atos considerados necessários
para obter as melhores opções e condições
para a realização dos nossos projetos. O ato
de gestão está em sintonia com o firme propósito
de contribuir com o renascimento de uma indústria
de construção de grandes navios forte e competitiva.
Mas o ato de gestão só poderia ser praticado
no caso de haver a habilitação técnica
das empresas. Por isso, resolvemos incluir estaleiros que,
circunstancialmente, não atenderam aos critérios
econômico-financeiros do Edital de Pré-qualificação,
mas que atingiram a habilitação técnica.
Não poderíamos ser omissos. A decisão
foi um ato de coragem, que colocou em primeiro plano os
interesses da empresa, dos sócios e do país.
Era o meu papel como gestor. Caso contrário, estaríamos
abrindo mão de empresas muito boas, inclusive uma
que ficou em segundo lugar no quesito técnico (Keppel
Fels/Brasfels). As três empresas (Keppel Fels/ Brasfels,
Mauá Jurong e Elisa) foram incluídas nos grupos
para os quais se habilitaram tecnicamente. Nesses grupos,
elas pontuaram acima do mínimo fixado no Edital.
Essa decisão não elimina o critério
econômico-financeiro, porque todos os sete grupos
e empresas pré-qualificados terão que apresentar
garantias econômico-financeiras, comprovar sua capacidade
financeira, quando forem convidados a apresentar as suas
propostas comerciais para a licitação.
FORJA - Qual serão
os próximos passos da licitação?
MACHADO - O cronograma de entrega dos navios
só será apresentado no futuro edital de licitação,
mas a expectativa é de que, até o fim do segundo
semestre de 2006, o primeiro navio esteja no mar. A questão
do prazo de construção será um item
importante da licitação. Quem oferecer menor
prazo de construção terá vantagem.
A Transpetro precisa de navios urgentemente. Queremos comprar
navios com qualidade, preços e prazos internacionalmente
competitivos.
É importante lembrar que, na futura licitação,
o jogo ficará zerado. Todos os sete concorrentes
estarão em igualdade de condições.
Na licitação, serão considerados custo
e prazo. Não queremos pagar mais do que preço
de mercado. E também não adianta a empresa
entregar o navio daqui a 10 anos.
FORJA - Sempre foi um sonho
da sociedade brasileira retomar essa questão da indústria
naval. A licitação que está em andamento
é uma delas, além de alguns acordos de desenvolvimento
tecnológico. O senhor pode falar um pouco mais sobre
isso?
MACHADO - O que eu acho importante é
o avanço cultural que a gente fez. O discurso dos
trabalhadores, a consciência dos empresários,
qualquer discussão que se tem hoje é travada
em outro nível. Ninguém tem dúvida
de que nós vamos fazer ressurgir a indústria
naval no Brasil. Nossa intenção não
é só construir navios, não é
fazer um sonho de verão, um barquinho de papel, ou
que se esgote como uma bolha, fazer quatro, cinco navios
e acabou. Eu quero a indústria. Para isso temos que
juntar empresários dispostos a investir em tecnologia,
em modernização, em pessoal. Se ele não
está disposto a fazer isso, ele não vai mudar,
vamos continuar na segunda geração e não
vamos ser competitivos.
Além disso, é preciso ter o quê? Tecnologia.
Nós procuramos o ministro (de Ciência e Tecnologia)
Eduardo Campos e assinamos um convênio. Procuramos
as universidades que tem setor naval, como a Coppe (UFRJ),
e a USP. Ainda estamos procurando outras universidades que
queiram integrar esse programa e estamos fazendo esse ano
um investimento em tecnologia de 30 milhões de reais
para desenvolver o setor naval no Brasil. Pra quê?
Todo setor de sucesso no Brasil tem um centro tecnológico
por trás. É assim na EMBRAER com o ITA (Instituto
de Tecnologia da Aeronáutica), é assim no
setor de agrobusiness com a EMBRAPA, foi assim com a nossa
Petrobras e o CENPES. Quando a gente começou ninguém
acreditava que tinha petróleo no Brasil. Diziam que
o país não era viável. Então
desenvolvemos tecnologia, exploramos petróleo em
terra, no mar... Começamos a retirar petróleo
a 17 metros de profundidade, agora estamos explorando a
3 mil metros. Esse ano, devemos chegar a auto-suficiência
e dentro em breve o Brasil vai começar a exportar.
Teremos uma independência energética que poucos
países no mundo têm. Vamos começar a
exportar petróleo dentro em pouco, temos etanol para
exportar, temos biomassa para exportar, temos tecnologia
hidráulica, temos 12% da água doce do mundo.
Então o Brasil entra com energia, com água,
numa perspectiva fantástica. Por quê? Porque
o brasileiro não se acomodou. Porque o brasileiro
não foi seguir conselho dos outros, porque o brasileiro
teve a audácia de mudar a regra do jogo. E é
isso que nós vamos fazer no setor naval.
FORJA - Como o senhor avalia
a participação dos trabalhadores e dos demais
segmentos na elaboração da proposta da Transpetro?
MACHADO - Primeiro a gente teve que discutir.
Eu não ia poder mudar a cultura, contribuir com a
política do governo Lula se ficasse aqui na Transpetro,
sentado, fechado, teorizando. Esse é um processo
de mudança e, por isso, tem que ter participação.
Então fizemos reuniões com BNDES, Petrobras,
Ministério de Minas e Energia, de Desenvolvimento,
e chegamos às conclusões. Foi um processo
sinérgico de avanço. O que eu pensava inicialmente
foi avançando, o que os outros pensavam foi avançando
e fizemos um processo de buscar o melhor para o Brasil.
Mas como não tínhamos nenhuma indústria
no Brasil em condições de fabricar navios
de grande porte, competitivos, a gente tinha que criar.
O modelo de edital foi fruto de diversas mãos que
participaram desse processo. Mas aí percebemos que
a gente só ia mudar se tivesse pedidos de grande
porte, para dar sustentabilidade e visão de longo
prazo. Então enfrentamos o paradigma da quantidade,
pensamos muito mais do que três ou quatro navios.
O governo compreendeu, a Petrobras compreendeu.
O segundo ponto é: como não tínhamos
nenhuma indústria em condições de ser
competitiva, nós teríamos que dar chance a
todos, pra quem quisesse investir, aonde quisesse investir.
Para nós era importante que fosse feito no Brasil.
Quem vai definir “onde” é quem estiver
disposto a atender os pré-requisitos: fabricar no
Brasil e ser competitivo em nível internacional.
Houve algumas resistências, o que faz parte do jogo.
O velho líder mundial Mao-Tsé-Tung já
dizia que se uma idéia nova não enfrenta oposição,
alguma coisa está errada. E nós queríamos
fazer uma transformação profunda, por isso
chegamos a esse modelo.
FORJA - E como esse modelo
de licitação pode ajudar na retomada do setor
naval? Já se fala em encomendas de navios de grande
porte também de outros países?
MACHADO - Fizemos primeiro uma pré-qualificação,
na qual as empresas iriam mostrar capacidade financeira,
capacidade tecnológica e o local em que iria construir
os navios, quais as instalações que teriam.
Com essa pré-qualificação a pessoa
tem que demonstrar vontade e capacidade de poder chegar.
Isso tanto faz para os novos ou para os antigos estaleiros,
como os do Rio. Agora, o empresário tem que demonstrar
explicitamente que quer isso, que quer chegar, senão
não vamos ter indústria no Brasil. Então
quem tem as instalações tem muito mais vantagem.
Onze grupos apresentaram proposta, dez estão na disputa,
e estamos selecionando quem é que apresentou proposta
suficiente para garantir a competitividade. Na segunda etapa
os pré-qualificados serão convidados para
definir sua proposta técnico-financeira. Quer dizer,
quanto vai custar cada navio, qual é a curva de aprendizado,
quem chega primeiro ao melhor preço e quem faz o
navio primeiro. Quem é que vai ganhar o certame?
Quem apresentar as melhores condições para
a Transpetro, e mostrar que vai entrar nesse processo. Com
isso nós conseguimos criar as indústrias de
construção naval de forma permanente no Brasil.
E no futuro os estaleiros brasileiros vão poder correr
atrás de outras encomendas.
A Venezuela está querendo vir para o Brasil. Por
que não veio antes? Porque não era competitivo
no preço. Eu não vou comprar navio no Brasil
porque é mais caro e leva mais tempo. Na hora que
a gente abriu a organização desse processo,
a PDVSA (empresa de petróleo venezuelana) já
pensou em fazer 36, 38 navios. Depois disso virão
os italianos, alemães... Porque hoje os estaleiros
do mundo todo estão com três, quatro anos de
carteira. Então logo que moderniza, na hora em que
a gente fica competitivo, vão aparecer vários
navios.
Nós vamos dar muito emprego no Brasil para fazer
navio para exportação. É o objetivo.
Nós não queremos que a indústria naval
ressurja só para atender o mercado brasileiro. Vai
ter que atender o mercado nacional e a exportação,
pra que possa gerar emprego, possa ser competitivo, possa
avançar. Nós temos também a questão
da cabotagem interna. Na matriz de transporte brasileiro
hoje o transporte aquaviário é de apenas 13%.
E a gente sabe que o transporte por caminhão só
é viável economicamente até 300 km.
Só que se olharmos o transporte de líquidos
e grãos no Brasil, o movimento por caminhão
responde por 95% do total. Isso significa que o produto
brasileiro fica mais caro, porque estamos usando a matriz
de transporte errada. Por isso eu tenho certeza de que o
governo vai repensar, vai avançar nosso sistema ferroviário,
o aquaviário, vai explorar nosso potencial de transporte
através dos nossos rios, de forma que seja possível
fazer essa mudança de cultura, de participação
que nós estamos vendo.
FORJA - O setor naval gera
uma grande expectativa de crescimento da oferta de emprego,
não só no setor, mas numa gama de outros setores
ligados a indústria naval. Quantos empregos devem
ser gerados com a iniciativa da Transpetro?
MACHADO - Nossa grande dúvida é:
não queremos uma bolha, não queremos um projeto
de papel. Nós queremos um projeto sustentável,
queremos que essa criança nasça robusta. O
que vai dar a garantia é o resto. Temos que ser modernos,
ter tecnologia, pessoal qualificado e empresários
com mentalidade aberta para reconstruir um setor que se
sustente. Para isso estamos investindo em tecnologia.
Só na primeira fase estamos garantindo 20 mil novos
empregos. Hoje não há nenhum brasileiro trabalhando
na construção de grandes navios, até
porque não se constrói um grande navio no
Brasil desde 1996. Vamos criar um novo setor, com uma perspectiva
enorme. Não estamos falando de mercado futuro. O
setor naval tem hoje em carteira 4.460 navios em todo o
mundo. Só que o Brasil ainda não faz parte
desse mundo, concentrado na Coréia, no Japão,
na China, na Polônia... Aí a gente se pergunta:
será que o brasileiro desaprendeu a fazer navio?
Será que aquela geração que em 70 era
vice-campeã mundial morreu e a gente não tem
mais condições? O que faltava era a vontade,
a decisão. Agora tem. Tem decisão política,
tem demanda, tem dinheiro e tem a sociedade, os trabalhadores
e empresários, que estão prevendo que é
hora de mudança. Isso é o que vai assegurar
a continuidade, que vai assegurar que nós vamos criar
um setor que vai dar emprego para os atuais metalúrgicos,
marítimos, químicos e engenheiros.
Seguindo essa estrada, o caminho também vai dar emprego
para os filhos e netos deles. Vai garantir ao Brasil uma
vantagem comparativa e estratégica num setor que
é vital para um país que tem uma localização
geográfica como o Brasil. Se eu não sou proprietário
dos navios, se o navio é de outro país, se
por acaso tiver falta, confusão ou interesses econômicos,
nós podemos até ficar sem navio. E se ficarmos
sem navio abriremos mão de 95% do nosso comércio
mundial, porque não teremos autonomia. O quê,
então, que vai garantir a continuidade, que não
seja só uma chuva de verão, que não
seja um emprego só durante a colheita? É a
nossa capacidade, nossa consciência, de empresários,
dos trabalhadores, do governo, de que nós temos que
criar um setor competitivo.
Ouvi do nosso Presidente Lula exatamente isso. Ele quer
é que se forme uma indústria de construção
naval permanente. Ele quer a construção de
grandes navios nesse governo e nos governos futuros. Porque
essa indústria é importante para o Brasil,
e é isso que nós temos que fazer.
FORJA - Então, o Brasil
pode recuperar sua posição na industria de
construção naval mundial, a partir das encomendas
da Transpetro?
MACHADO - A Hyundai, por exemplo, fabricou ano
passado 123 navios. Quando nós éramos atletas
fortes, participantes da disputa do campeonato mundial de
navios, essa empresa não existia, ela só foi
fundada em 1973. Quando ela nasceu o Brasil já era
vice-campeão mundial de navios. Hoje essa empresa
tem uma carteira de mais de 500 navios e nós não
existimos. Mas como nós temos vocação
e necessidade, além de sermos bons atletas, acredito
que vamos recuperar nossa posição.
FORJA – Como o senhor
avalia o apoio dos trabalhadores a este processo de retomada?
MACHADO - Importantíssimo. A conscientização
dos trabalhadores foi fundamental para que a gente pudesse
romper com a inércia, romper com aqueles que não
queriam a mudança de paradigma. O que o trabalhador
consciente quer, e graças a Deus eles são
hoje a maioria, é a estabilidade, a perspectiva,
a continuidade do emprego. E isso só vai acontecer
no mundo de hoje se formos competitivos. O Brasil está
chegando a essa condição. Com que orgulho
a gente não anda pelo Brasil e pelo mundo vendo os
aviões da EMBRAER nos aeroportos? Ouvindo a aeromoça
falar “avião da EMBRAER modelo tal...”.
Nosso ego vai lá em cima. Aí a gente sai desse
orgulho todo com os aviões e vai ver o Porto do Rio,
o Porto de Fortaleza, o Porto de Santos... Não vê
navio fabricado no Brasil nem vê navio com bandeira
brasileira. A gente vê nosso dinheiro indo embora,
são oportunidades perdidas.
Queremos criar um negócio permanente, competitivo,
porque sem isso não tem continuidade. Criaríamos
uma falsa perspectiva para o trabalhador e para o investidor.
Nós não podemos mais desperdiçar recursos.
Nem humano e nem financeiro. Temos que entrar no campeonato
para valer, para ganhar, para chegar ao pódio. Temos
condição, tecnologia, dinheiro, demanda, sociedade
consciente e uma vontade política muito grande de
fazer isso.
Fico muito feliz de ter tido a compreensão de vocês
trabalhadores. Quando eu recebi aquela homenagem no sindicato
fiquei muito honrado. Vocês não estão
me dando uma placa por que fiz os navios, é um reconhecimento
da direção de um sindicato por onde passou
Jango, Lula, Juscelino, um sindicato que sempre esteve atrelado
à coragem e ao desafio do desenvolvimento, do crescimento,
da geração de empregos. Isso significa um
objetivo comum de desenvolver o Brasil. E é disso
que o país precisa, dessa coragem, desse pensar grande.
FORJA - Nós temos
uma preocupação central com o início
das obras. Quando que efetivamente isso vai acontecer?
MACHADO - Nós esperamos concluir o processo
para em setembro os estaleiros começarem a ser contratados.
Nós queremos ver no segundo semestre do ano que vem
o primeiro navio flutuando. Agora, queremos que flutue de
forma permanente. Isso só foi possível por
causa do apoio da sociedade e da ajuda decisiva dos trabalhadores
para que a gente pudesse romper o paradigma.
Houve um grande embate de idéias nesse ponto. De
certa maneira isso faz parte da democracia, não tenho
nenhuma pretensão de ser o dono da verdade. Para
o futuro teremos a encomenda dos outros 20 navios. Teremos
também outras possibilidades enormes. O Brasil pode
começar a exportar petróleo e, com isso, vai
precisar de mais navios. O etanol, com o advento do Tratado
de Kioto, é uma outra possibilidade. Temos também
para exportar a biomassa, o biodiesel...são muitas
oportunidades que nós temos para o crescimento. Nós
temos que usar então essa vantagem comparativa na
produção sem perder a visão de que
precisamos satisfazer nossa demanda interna e atender o
mercado externo. A Transpetro tem hoje 47 navios, 10.000
km de dutos e 43 terminais. Precisamos, como empresa de
logística dentro do sistema Petrobras, garantir a
segurança, o meio-ambiente e a competitividade. Faremos
investimentos em dutos, transporte de etanol, biomassa,
gás que o Brasil descobriu agora, e com isso gerar
riqueza, emprego, competitividade e independência
para o país.
FORJA - O programa também
é essencial para o Sistema Petrobras?
MACHADO - Certamente. O programa da Transpetro
está alinhado à política do governo,
ao desafio do Presidente Lula, ao BNDES, a Petrobras. A
vantagem disso é que nós vamos dar autonomia
ao país, vamos gerar empregos e vamos aumentar o
lucro do sistema Petrobras, que está sendo transferido
pra fora. Hoje estamos alugando 60 navios. Isso mostra que
podemos realizar a boa política industrial, aumentando
o lucro, a competitividade do país e com isso, gerar
emprego. Queremos fabricar no Brasil com qualidade e preço
de nível internacional. Usar nossa demanda para poder
permitir que esse processo aconteça. Podemos economizar
para o Brasil uma boa parte dos dez bilhões que hoje
a gente paga de transporte marítimo. O ministro (Antônio)
Palocci ficaria muito feliz, e com isso nós poderíamos
fazer o desenvolvimento.
FORJA - Como o senhor vê
a participação da indústria fluminense
dentro desse projeto nacional?
MACHADO - Eu vejo uma oportunidade fantástica
para o Rio de Janeiro. A indústria fluminense tem
toda a condição de ser altamente competitiva.
No mundo moderno, ninguém domina nenhum setor por
hereditariedade, e sim por competência. O Rio tem
toda condição de na indústria naval
continuar com competência. Isso faz com que o estado
continue numa posição de vanguarda.
O que nós estamos vendo ao longo desse processo de
licitação é o Rio se preparando. O
Estado trouxe tecnologia de fora para competir. O Rio tem
trabalhadores e empresários competentes, pode dar
essa competência para o Brasil de fabricar navios
a preços competitivos internacionalmente. O Rio tem
um papel no desenvolvimento, tem investimentos feitos pela
Petrobras, tem siderúrgicas, toda uma potencialidade
que está sendo explorada. Até por ter sido
a capital, tem uma base humana forte. Eu vejo o Rio com
vasto potencial. Agora, depende da vontade. No mundo moderno
ninguém é campeão porque “foi”.
Quem quiser ser campeão tem que treinar, se preparar,
botar os melhores jogadores em campo e ter vontade de ser
o melhor. Acho que o Rio tem todas as condições
para que isso aconteça.
Nós da Petrobras, da Transpetro estamos garantindo
demanda. O governo, via BNDES, dá o dinheiro. Mas
nós não queremos substituir ninguém,
não queremos fazer estaleiro estatal. Queremos estaleiros
privados, que dependem fundamentalmente da vontade dos empresários
de poder se modernizar, de poder assumir a mão-de-obra.
Eu não posso jamais querer substituir aquilo que
é básico, o empreendedorismo do empresário.
FORJA - Vivemos um
momento de uma crise política profunda no país.
Vemos que há um objetivo de interromper a mudança
que começou nesse governo. Estivemos com o Presidente
Lula no lançamento da plataforma aqui no Rio e transmitimos
nossa solidariedade. Gostaríamos que o senhor, que
faz parte desse governo, pudesse passar uma mensagem para
os trabalhadores de nossa categoria a respeito disso.
MACHADO - Nesse momento nós temos a confiança
de que o presidente Lula é um homem que tem história,
que tem passado e que não tem rabo preso com ninguém.
Um homem que vem com toda a determinação de
fazer um processo de mudança. E nós temos
a perfeita consciência e o desafio de que o que nós
queremos é a mudança. Nós queremos
um Brasil diferente, queremos avanço, desenvolvimento
e crescimento. E entendemos que nosso Presidente será
capaz de nos conduzir. Como estamos querendo essa transformação,
nós vamos gerar essa sinergia, essa vontade, e atingiremos
nosso objetivo, de fazer as mudanças.
Nós já estamos fazendo isso na indústria
naval, criando essas condições para o renascimento
do setor e eu tenho certeza que esse momento é singular,
é muito importante. Na história do mundo,
todos os momentos de mudança, de ruptura, de transformação
são momentos tensos. Ninguém cria novas coisas
achando que vai criar de forma fácil. Mas quando
se tem a firmeza de um líder que tenha vontade, as
coisas avançam. Eu não tenho dúvida
nenhuma que esse nosso projeto de participação
geral vai chegar lá, porque estamos segurando com
força o leme. Temos um rumo para navegar, e sabemos
em qual porto nós vamos chegar. O Brasil vai chegar
num porto com justiça social, com desenvolvimento,
com reconhecimento e respeito.
Nós não estamos crescendo à custa do
fracasso dos outros, mas à custa da nossa competência,
da nossa competitividade. Para a gente exportar nossos produtos
agrícolas não precisa ter geada em outros
países. Porque nossos produtos são competitivos,
nosso aço, nossos aviões são competitivos.
Nossos navios também serão competitivos. Nossa
economia é competitiva e o brasileiro tem condição.
É isso que nós vamos mostrar na indústria
de construção naval. Por que o coreano tem
mais produtividade que brasileiro? Porque ele é melhor
que nós? Não, é porque ele tem melhores
instrumentos, assim como nós também teremos.
Esse momento é um momento de todos nós darmos
as mãos. O que está em jogo é um projeto,
é uma possibilidade, é um momento de desenvolvimento.
É o momento de construir uma nova estrada. Nós
vamos ter que dirigir e construir a estrada ao mesmo tempo.
E eu tenho certeza de que nós somos capazes de rasgar
essa estrada, que vai fazer com que a maioria dos brasileiros
possa trafegar nela. Não vai ser uma estrada para
alguns, mas sim uma estrada para a maioria. Esse é
o desafio da justiça social, da oportunidade de emprego,
de crescimento. A indústria da construção
naval é um bom exemplo de que com vontade, com determinação
e com coragem é possível transformar, mudar
e avançar.
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