Entrevista:
José Sérgio Gabrielli por por Claudia Dias
Rumo à auto-suficiência
do Brasil
Com a entrada
em operação da plataforma P-50, que será
a unidade de maior capacidade de produção
do Brasil e de outras três plataformas – uma
em Sergipe e duas no Espírito Santo – o Brasil
caminha a passos largos, rumo à auto-suficiência
em petróleo. No setor naval, a perspectiva é
de novos ventos, já no próximo ano, com o
Programa de Modernização e Expansão
da Frota da Transpetro. Com toda essa estimativa de dinamização
da economia, tendo a Petrobrás como a alavanca principal
deste movimento, a FORJA ouviu o Presidente da Estatal,
José Sérgio Gabrielli de Azevedo. Segundo
ele, a expectativa é de uma recuperação
sustentável do setor, na medida em que um dos principais
fundamentos do programa é tornar os estaleiros internacionalmente
competitivos.
FORJA - Para
o senhor, quais os principais fatores do desempenho da PETROBRÁS
no ano passado, quando a empresa realizou os resultados
operacionais e financeiros mais significativos de sua história?
GABRIELLI - O excelente resultado obtido no ano passado,
quando registramos um lucro recorde histórico de
quase R$ 18 bilhões, refletiu a estratégia
de longo prazo, adotada pela Petrobras, com ênfase
nos expressivos investimentos visando a aumentar a competitividade,
a nossa capacidade de produção e elevar a
reposição de reservas de petróleo,
para garantir a sustentabilidade do abastecimento do País.
Ao analisarmos o desempenho da Petrobras é fundamental
lembrar que a Petrobras é uma empresa integrada,
com atividades de exploração, produção
e refino em uma mesma empresa, onde as margens de um segmento
compensam as de outro, mantendo o necessário equilíbrio.
O desempenho e os avanços extraordinários
dos últimos anos devem-se, sem dúvida, ao
talento, dedicação e capacidade de realização
de seus milhares de empregados.
FORJA - O plano de negócios
2006-2010 da estatal, mantém metas agressivas de
crescimento. O senhor acredita na auto-suficiência
do país, em termos de petróleo, a partir de
que ano?
GABRIELLI - O conceito de auto-suficiência é
a relação entre a disponibilidade volumétrica
de petróleo necessária para ser processado
nas refinarias brasileiras e a demanda interna, hoje em
torno de 1,8 milhão de barris por dia. Com a entrada
em operação de mais duas plataformas na Bacia
de Campos (P-50 e P-34), nossa produção atingirá
esse patamar nos primeiros meses de 2006, caracterizando
a conquista da auto-suficiência. Essa marca será
sustentável porque estaremos implantando 36 novos
projetos, nos próximos cinco anos, para desenvolver
os reservatórios já descobertos, principalmente
em águas profundas e ultra-profundas.
FORJA - Como está
o programa de investimento da PETROBRÁS para o próximo
ano?
GABRIELLI -O Plano Estratégico da Companhia para
o horizonte 2010 prevê investimentos de US$ 56,4 bilhões
de dólares, com aplicações médias
anuais de US$ 11,3 bilhões, dos quais US$ 9,9 bilhões
no Brasil e US$ 1,4 bilhão no exterior. A maior parcela
dos investimentos, 54%, se destina à área
de Exploração e Produção. Em
2006, serão investidos pelo Sistema Petrobras R$
36,2 bilhões, dos quais R$ 31,9 bilhões em
Investimentos Diretos.
FORJA - O Setor Naval está
se recuperando, com o apoio da PETROBRÁS. Qual é
a sua expectativa neste sentido?
GABRIELLI - Nossa expectativa é que será uma
recuperação sustentável, na medida
em que um dos principais fundamentos do programa é
tornar os estaleiros, já existentes ou em implantação,
internacionalmente competitivos e com capacidade para construir
todos os tipos de embarcação hoje requeridas
pelo setor naval.

Gabrielli durante o evento
de lançamento da licitação de navios
com a presença do Presidente Lula
FORJA - A discussão
sobre o projeto naval vem sendo feita com todos os envolvidos
no processo – empresários, trabalhadores e
governo. Qual é a sua visão específica
sobre este assunto?
GABRIELLI - O modelo de encomendas que estamos adotando
estabelece um novo paradigma para a indústria naval
brasileira. Isto porque contou com a participação
de diversos segmentos da sociedade para sua estruturação.
Esse sonho está se tornando realidade, graças
à contribuição participativa das empresas
do sistema Petrobras, da comunidade acadêmica, do
governo, do empresariado e os sindicatos de petroleiros,
marítimos e metalúrgicos. Nossa percepção
é que, sem esta união de forças, o
programa não poderia ser implantado com objetivos
tão abrangentes.
FORJA - Qual é o envolvimento
da PETROBRÁS nesta discussão em conjunto?
GABRIELLI - O envolvimento do Sistema Petrobras neste contexto
foi fundamental para a definição das premissas
do programa. Primeiro, pela sua decisão de construir
navios no Brasil com exigência de conteúdo
mínimo nacional de 65%. Segundo, por possibilitar,
com suas encomendas, que os estaleiros alcancem, capacitação,
preços e prazos internacionalmente competitivos.
Adicionalmente, por garantir, ao setor de construção
naval, escala para investimentos em instalações
e tecnologia.
FORJA - O Programa de Modernização
e Expansão da frota da TRANSPETRO vai dinamizar vários
setores da economia nacional, com a construção
de 42 navios e a geração de milhares de empregos.
Isto reforça a idéia de que a empresa poderá
funcionar como uma alavanca para o desenvolvimento do país.
O senhor tem essa percepção?
GABRIELLI - Esta sempre foi uma preocupação
da Petrobras, desde a sua criação. A partir
da década de 60, quando a companhia optou por construir
refinarias, para produzir no Brasil os derivados que eram
importados em grande escala, com elevados gastos de divisas,
capacitou a indústria nacional para essa atividade.
Na década de 70, adotou o mesmo critério na
implantação da indústria petroquímica.
Quando foi descoberto petróleo na Bacia de Campos,
em meados dos anos 70, as primeiras plataformas para águas
rasas foram construídas no Brasil. O processo de
alavancagem do desenvolvimento é contínuo
e está explicitado no nosso Plano de Negócios
que prevê encomendas de US$ 32 milhões a fornecedores
nacionais nos próximos cinco anos.
FORJA - Que benefícios
este programa vai gerar para o país?
GABRIELLI - O Programa é essencial e estratégico
para o Brasil, que usa o transporte marítimo em 95%
de suas trocas comerciais, gasta cerca de US$ 10 bilhões
anualmente com transporte marítimo e somente 4% desse
total ficam com empresas brasileiras. O aumento da frota
própria vai reduzir custos e garantir que os lucros
dos armadores, os empregos e os impostos fiquem no Brasil.
A iniciativa vai gerar 20 mil empregos somente com a construção
dos primeiros 22 navios, que terão investimento de
US$ 1,1 bilhão. Também haverá um aquecimento
dos setores industriais, que fornecerão peças
e insumos para os estaleiros, como o metalúrgico,
o siderúrgico, o químico e o de instalações
elétricas entre outros.
FORJA - O senhor acredita
que a demanda brasileira por navios possa levar o setor
à auto-sustentabilidade? Em quanto tempo?
GABRIELLI - O setor já seria auto-sustentável
se o processo não tivesse sido interrompido bruscamente
há mais de 10 anos. Considerando que a previsão
é que os primeiros navios sejam lançados no
final de 2006 ou início de 2007 é de se esperar
que, nos próximos dois ou três anos, a indústria
naval brasileira de grande porte já esteja capacitada
para continuar a atender encomendas internas e do exterior.
Além dos navios, as recentes e as futuras encomendas
de plataformas pela Petrobras abrem um outro nicho de mercado
para os estaleiros. Já está sendo construída
totalmente no país, pela primeira vez, uma unidade
de produção semi-submersível, a P-51,
e vamos encomendar, também aqui, o primeiro casco
novo destinado a um FPSO, tipo de plataforma de produção
que até agora utilizava casco de navios-tanque existentes.
FORJA - O Brasil já
foi um dos primeiros colocados no ranking de construção
de navios, em nível internacional, na década
de 70 e meados de 8O. Existe hoje, o interesse do país
em voltar a disputar o mercado internacional?
GABRIELLI - O Brasil já ocupou o segundo lugar no
ranking mundial do setor que, infelizmente, desde a década
de 8O entrou em estagnação. O Programa é
o primeiro passo para que os estaleiros nacionais iniciem
a produção em escala e se tornem competitivos
internacionalmente.
FORJA - A PETROBRÁS
é uma referência em tecnologia e qualidade
de produção. Por outro lado, emprega grande
quantidade de serviços terceirizados. Como esses
dois fatores não se contrapõem na qualidade
dos serviços? Que mecanismos são utilizados
para este controle?
GABRIELLI - A Petrobras exige, das empresas contratadas,
os mesmos padrões de eficiência, segurança
operacional, cuidados ambientais e com a saúde que
oferece a seus empregados diretos, tendo como objetivo a
qualidade dos serviços prestados e a busca da excelência.
Desde 2003, está em vigor o Programa de Gestão
de Fornecedores que visa a integrar informações
sobre capacidade e resultados, proporcionando monitoramento
das prestadoras de serviço nos aspectos econômicos,
legais, técnicos, gerenciais, de segurança,
meio ambiente e saúde e de responsabilidade social.
Outros programas neste sentido visam a garantir a qualidade
de materiais e serviços e desenvolvimento de fornecedores.
Também temos aumentado a contratação
via processo seletivo público. Atualmente contamos
com mais de nove mil novos empregados na Petrobras.
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