Entrevista:
Carlos Lessa
(por Edson
Coelho de Oliveira - foto Thelma Vidales)
Chegou a hora de crescer
O
presidente do BNDES, Carlos Lessa, fala a FORJA sobre desenvolvimento
e emprego, e se mostra otimista com o futuro do Brasil.
Para Lessa, podemos crescer 4% este ano, e muito mais nos
anos seguintes. Além do setor naval, que deve gerar
mais de 100 mil empregos até 2.010, ele diz que os
setores de softwares, metal-mecânico, semi-condutores
e bens de capitais podem ter grande desempenho no Rio de
Janeiro. E afiança que o porto de Sepetiba pode tornar-se
em breve o mais importante da América do Sul, em
torno do qual se concentram 70% do PIB brasileiro. Confira
os principais trechos da entrevista.
Forja - Os indicadores e
alguns números dizem que o Brasil voltou a crescer,
e de forma minimamente sustentável. O que podemos
esperar para os próximos meses e anos?
Carlos Lessa – Eu diria a você que, se as condições
internacionais se mantiverem razoavelmente estáveis,
e se o Brasil avançar na sua negociação
logrando reduzir a taxa de juros básica brasileira
e ampliar o gasto público, nós podemos esperar
um final de ano com uma taxa de crescimento em torno de
4%, e, em 2005, ter uma taxa ainda mais significativa. Eu
acho que o Brasil, para crescer mesmo, precisa crescer pelo
menos 5% ao ano. O bom é crescer a taxas superiores
a 5%. E já o fizemos – de 1930 até 1950,
quando o crescimento foi próximo a 7% ao ano. Precisamos
crescer de forma sustentada, porque temos uma população
com desníveis sociais gigantescos, e com um problema
muito sério no presente: doze milhões de desempregados,
dos quais 40% têm 25 anos ou menos. Eu pessoalmente
acho que essa concentração de desemprego na
juventude é um fenômeno absolutamente preocupante.
Se você pegar um povo jovem, e não der a ele
uma visão de vida produtiva, de inserção
numa sociedade que se expande, onde ele pode esperar uma
realização razoável do seu projeto
de vida, você está criando uma sociedade sem
fé, sem alma. Você desagrega o tecido social.
Então não é uma questão só
de economia. É uma questão de corpo, corpo
brasileiro. Mas eu acho que o País tem tudo para
crescer a taxas muito mais substanciais do que 4% ou 3,5%.
Forja - O senhor confia que
a conjuntura se manterá “razoavelmente estável”?
Lessa – Não, nem posso confiar. O futuro mundial
está muito incerto, muito difícil. Há
uma possibilidade de acontecer uma nova crise do petróleo,
cujas complicações são absolutamente
desorganizadoras para a economia. Aliás, todo famoso
discurso da globalização fica muito submetido
a esse cenário. Que é um cenário bastante
plausível. Um cenário de instabilidade. Por
isso é que eu coloquei: a minha visão é
de que, se o cenário internacional se mantiver razoavelmente
estável, nós do Brasil vamos ter esse ano
um crescimento da ordem de uns 4%, e podemos nos preparar
para no próximo ano ter um crescimento macro. Agora,
essa trajetória pode ser muito prejudicada - se,
por exemplo, nos EUA houver uma elevação muito
forte da taxa de juros. Se a situação política
no Oriente Médio produzir um novo choque de petróleo.
São hipóteses, infelizmente, muito próximas,
com alta probabilidade.
Forja - Como o senhor definiria
o Rio de Janeiro, a partir de uma expectativa dos financiamentos
pedidos ao BNDES?
Lessa – Esse ano o Rio cresceu no banco. Por exemplo,
de janeiro a maio de 2003 tivemos aqui no banco um número
de liberações, para pequenas e médias
empresas, da ordem de 67 milhões de reais. Este ano
já liberamos 106 milhões. Em médias
empresas, nós saímos de 605 milhões
para 759 milhões. E, em grandes empresas, saímos
de 761 para 899 milhões. Um crescimento tanto nas
pequenas, quanto nas médias e grandes empresas. É
um bom indicador. As consultas também vêm crescendo.
Primeiro é preciso deixar claro o seguinte: o Rio
de Janeiro tem tal peso no Brasil que, de alguma maneira,
ele está condicionado ao desempenho global da economia
brasileira. Quando a economia brasileira fica mais robusta,
a economia do Rio responde com mais facilidade. O Rio de
Janeiro tem muitas possibilidades hoje, e a principal é
a economia do petróleo: toda a cadeia produtiva do
petróleo. O programa empresarial do Brasil mais vigoroso
é o da Petrobrás. E ela fará no RJ
mais ou menos 70% de seu total de investimentos. Isso dá
uma base de crescimento para variadíssimas atividades
industriais e de serviço para esse Estado. Outra
indústria do Rio que estava hibernando era a construção
naval. Muito devido à própria Petrobrás,
e outra, que nós, do BNDES, seguindo instruções
do presidente Lula, demos total prioridade a esse segmento,
e a indústria da construção naval está
tendo um desempenho brilhante. Não apenas vamos fazer
no Rio diversas plataformas, de grande porte, e grande parte
das embarcações especializadas para plataformas
continentais, como também um pedaço grande
dos petroleiros. Então a indústria de construção
naval do Rio está indo muito, muito bem.
Forja – E em outros
setores?
Lessa – Outro dado importante que se aproxima, para
o Rio de Janeiro, é a questão da logística.
O Rio de Janeiro tem um porto chamado Sepetiba, que por
suas características tende a ser o mais importante
da América do Sul. Nos 500 quilômetros em torno
de Sepetiba estão setenta e poucos por cento do PIB
brasileiro. E, hoje, as possibilidades de ampliação
dos outros portos são muito pequenas. Na verdade,
você tem o velho porto do Rio de Janeiro, muito limitado,
por uma questão de calado e por estar encapsulado
dentro da cidade; o porto de Santos está hipersolicitado
e o porto de Paranaguá, à beira do colapso.
Sobra o porto de Vitória e o de Sepetiba. E este
tem algumas coisas maravilhosas. Uma é a profundidade
do canal de acesso de 18 metros, podendo chegar a 22 com
um pequeno investimento; tem um retroporto de cem mil metros,
imediato, e um retroporto mediato que vai até o médio
Paraíba; tem chão, terra, para desenvolver
bases industriais por todos os lados. Então há
grande possibilidade de muitas novas indústrias se
instalarem nessa região e indústrias de outras
regiões se deslocarem para lá.
Forja – Existem ações
concretas neste sentido? O governo vai estimular o desenvolvimento
em torno do porto?
Lessa – Existem coisas importantes. A Presidência
da República decidiu dar prioridade absoluta ao rodo-anel.
O rodo-anel é uma ligação que contorna
a cidade do Rio de Janeiro, entre a BR-101 e a Rio-São
Paulo (a Via Dutra). Isso descongestiona a cidade, e tem
o seguinte efeito: aproxima as rodovias do porto de Sepetiba.
Então você vai eliminar muitos dos problemas
de acesso ao porto. O rodo-anel já está em
fase de projeto executivo. Um projeto que leva uns dois
anos para ser executado. Ele muda inteiramente a lógica
rodoviária da região e as mais importantes
estradas do País passam a ter uma proximidade, uma
cercania de Sepetiba, extremamente confortável ao
porto. Além disso, as dificuldades de embarque de
grãos nos outros portos já fazem, para 2005,
Sepetiba passar a ser exportadora de soja. Há um
projeto para, já em janeiro de 2005, exportar dois
milhões de toneladas de soja por Sepetiba. É
o início de uma coisa importantíssima para
o Rio de Janeiro. O Rio é o segundo maior consumidor
no Brasil de biscoitos, óleo de soja, rações,
farinhas etc. Todas estas indústrias, mais produção
de frango, produção de ovos, produção
de porco e derivados, tudo isso desapareceu do Rio: porque
nós não tínhamos agricultura de grãos.
Porém, se nós começarmos a exportar
soja de maneira eficiente por Sepetiba, podemos, por este
porto, receber grãos de todo o Brasil. E aí
grãos vão ficar baratos no Rio de Janeiro.
Como se você passasse a ter produção
de grãos aqui. Então você vai começar
naturalmente a pensar o óleo de soja, e passa a ter
óleo comestível, farelo de soja, que permite
a você ter a cadeia de avicultura, a cadeia de suinocultura,
aí você começa a renascer todo esse
complexo agro-industrial que houve no passado no RJ.
Outro exemplo de Sepetiba: é um porto maravilhoso
para uma grande siderúrgica. Já tem, que eu
saiba, pelo menos dois grandes grupos brasileiros estudando
a possibilidade de fazer uma siderúrgica naquele
porto.
Forja – O senhor acha
então que é uma coisa definitiva, e que pode
fazer o Rio retomar sua antiga importância na economia
nacional?
Lessa – Certamente. Aliás, o simples fato de
a economia do petróleo estar tendo esse bom desempenho,
e da economia da construção naval, já
fez com que o Rio voltasse a ocupar a segunda posição
no Brasil.
Forja – Quais os setores,
no Rio, que mais pediram financiamentos ao BNDES?
Lessa – O grosso está ligado à infra-estrutura.
Mais da metade dos empregos que nós esperamos criar
aqui no RJ está ligada à infra-estrutura.
Porque estamos com a perspectiva de grandes obras ligadas
à termoelétrica - está sendo construída
no RJ a segunda maior termoelétrica da América
do Sul, com financiamento nosso, em Macaé. E tem
o rodo-anel. Tem ainda um terceiro cais em Sepetiba, e provavelmente
vamos reativar investimentos no metrô. Então
tem aí um elenco de projetos importantes ligados
à infra-estrutura. Depois vem a indústria,
e aí está a construção naval.
A petroquímica a gás que vai inaugurar no
comecinho do próximo ano, a Riopolímeros;
tem um projeto de ampliação e modernização
da Reduc sendo executado em Duque de Caxias. O Rio de Janeiro
está, nesse momento, vivendo uma fase que é,
no quadro brasileiro, bastante favorável. Não
é o que eu quero, o que queremos. Mas, em termos
de Brasil, o Rio de Janeiro está se movendo razoavelmente
bem.
Forja – O senhor destacou
a infra-estrutura. Isso sinalizaria um desenvolvimento sustentável,
aqui no Rio?
Lessa – Não. O Rio de Janeiro só terá
desenvolvimento sustentável se o Brasil o tiver.
Não se pode ter um projeto específico para
o Rio, pois o Estado depende de como se move a economia
brasileira como um todo. Agora, em relação
ao petróleo, as perspectivas são brilhantes;
mesmo o campo de Santos está mais próximo
de Macaé do que de Santos. Então, provavelmente
o desenvolvimento do novo campo vai se dar também
pelo Rio de Janeiro.
Forja – Teria uma previsão
do número de empregos que seriam gerados a partir
dos financiamentos do BNDES?
Lessa – O que posso dizer é que as operações
que estão contratadas, e ainda em desembolso, devem
criar aqui 21.452 empregos diretos. As operações
em consulta podem dobrar esse número, até
o final do ano. E há os indiretos. No caso da construção
naval, é mais ou menos três para um. Para cada
emprego criado num estaleiro, você cria três
outros na economia de serviço e na cadeia industrial.
No caso do petróleo, você gera mais do que
três por um. Se tudo se comportar como nossas estimativas
– vou dar um número: talvez criemos em torno
de 200 mil empregos, diretos e indiretos, a partir da carteira
BNDES, até 2.010.
Forja – O BNDES dispõe
de quanto para financiamentos este ano?
Lessa – Temos 47,8 bilhões de reais para 2004.
Com isso, já somos maiores que o Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID). Em 2005, teremos 60 bilhões
de reais. Se a taxa de câmbio se mantiver, seremos
maiores que o Banco Mundial.
Forja - O governo federal
vai irradiar sua política de desenvolvimento a partir
de quatro setores: bens de capital, fármacos, softwares,
e semi-condutores: por que foram priorizados estes setores?
Lessa – Basicamente, porque são setores de
alto conteúdo tecnológico e de grande velocidade
de renovação. No caso dos fármacos,
você tem pela frente uma revolução:
deixa de ser produto farmo-químico, e passa a ser
produto de engenharia genética. O Brasil tem uma
base científica muito boa para engenharia genética.
E precisamos nos preparar para ter a base industrial. As
terapias vão se modificar de maneira absolutamente
espetacular. Será muito mais (num futuro próximo)
medicina preventiva do que curativa. E dependeremos muito
desse desenvolvimento. Ou nos mexemos agora, ou perderemos
o trem. Além disso, já estamos muito atrasados
em farmo-químicos. Não tiramos partido sequer
dos fitoterápicos. No caso dos softwares, acho que
o Brasil tem uma posição muito forte. Produz
softwares de qualidade para dentro do Brasil. Estamos na
vanguarda de softers bancários, e, por incrível
que pareça, softwares eleitorais. Mas exportamos
muito pouco. O Brasil pode ampliar a produção
e passar a exportar muito mais softwares. Não somos
uma das dez maiores economias do mundo, mas temos o sexto
mercado de softwares. Se nos organizarmos, podemos não
apenas ser auto-suficientes, como exportar. No caso da micro-eletrônica,
estamos muito atrasados, mas podemos ter pelo menos uma
grande indústria ligada ao setor. No caso dos bens
de capital, é um setor chave: engloba tudo que é
máquina, equipamento etc. É um ramo que tem,
dentro do País, chaves do futuro. E somos muito bons
nisso. Por exemplo, compressores e turbinas elétricas;
aviões a jato; máquinas agrícolas;
motocicletas. Tanto que exportamos muitos desses itens.
Entretanto, atrofiamos essa indústria, deixamos ramos
dela morrerem. Por exemplo, a indústria ferroviária
quase desapareceu. Paramos de fabricar locomotivas. Perdemos
densidade em toda essa indústria de caldeiraria.
Temos então, no bens de capitais, um setor de grande
potencialidade. Ao mesmo tempo, é um setor que materializa
novas tecnologias.
Forja – E como o Rio
vai se inserir nesse processo?
Lessa – Não sei. Sou o presidente de um banco
nacional. Mas o Rio tem, em algumas coisas, potencialidades
enormes. Por exemplo, temos muitas chances no que diz respeito
à engenharia genética. Até porque temos
aqui uma base espetacular: a Universidade Federal do Rio
de Janeiro e a Fundação Oswaldo Cruz, que
tornam o Rio um dos centros mais importantes do Brasil nisso,
do ponto de vista científico. Precisa estimular a
indústria. Em softers o Rio também tem uma
grande tradição. Eu diria que, pelo menos
nesses dois setores, estamos muito bem posicionados. Precisamos
de incentivo, organização etc.
Forja – A China hoje
é o mercado que mais cresce no mundo. É um
país comunista, do qual o Brasil está se aproximando.
Como o senhor vê o futuro dessa relação?
Estaria se formando um novo eixo econômico em torno
da China, que seria, naturalmente, oposto ao dos EUA?
Lessa – O Brasil tem uma característica interessante:
se você nos comparar, por exemplo, com o México,
é impressionante como o Brasil é diferenciado.
A política externa do Brasil hoje tem privilegiado
duas dimensões muito importantes: uma é fortalecer
a integração sul-americana; abrir-se em negociações
com Argentina, Venezuela, Bolívia, Paraguai (isso
acompanhei muito de perto porque o BNDES é a instituição
que leva à frente acordos muito sólidos ligados
à infra-estrutura); a outra dimensão de nossa
diplomacia foi um esforço muito grande na África,
na Índia, na China. Acho que tem um eixo aí
se construindo, que no momento apresenta ainda uma série
de problemas de ajustamento, mas que tem grande potencialidade.
Com a China, as apostas brasileiras são muito boas,
até porque os chineses estão vivendo um momento
um tanto dramático em relação à
água. O lençol freático do norte da
China está caindo. A industrialização
chinesa desviou muito da água para a produção
e para as cidades. Cada vez falta mais água para
a agricultura. Como a agricultura do norte daquele país
respondia por cerca de 70% da produção nacional,
a China ou reduz o ritmo de industrialização,
ou compra mais alimentos. Como o Brasil tem uma economia
extremamente bem-sucedida na produção de grãos,
podemos oferecer algo fundamental para eles. Outra coisa
que temos, fundamental para a China, é o minério
de ferro, o melhor do mundo, com o mais alto teor. São,
portanto, itens estrategicamente importantes.
Forja – E quanto ao
provável eixo que estaria se formando em torno da
China, em natural oposição aos EUA?
Lessa – Os EUA também estão aumentando
muito as relações com a China... A oposição
não vai se dar pelo eixo com o Brasil. Há
um problema muito sério da China, que é o
do petróleo. E os EUA também têm um
desequilíbrio enorme de petróleo: consomem
30% do petróleo do mundo, e toda a América
(EUA, Venezuela, Brasil...) produz apenas 15%. Os EUA têm
que procurar petróleo fora do Novo Continente. E
só tem um lugar para procurar – na Ásia
Central (Oriente Médio). Assim como também
a China, o Japão, a Europa – todos têm
que procurar petróleo lá. Aquela região
é um fulcro, e por isso acumula tensões mundiais.
Ali é que pode se dar essa polarização
EUA-China. O Brasil está bom de petróleo.
Em dois anos, seremos auto-suficientes. Além disso,
somos bons de energia, temos muita água e formas
alternativas de geração. Nós também
temos chão. Podemos crescer. Isso dá à
produção brasileira uma vantagem imensa. Podemos
ser produtores de energia renovável. Falar isso hoje
pode parecer exagero. Mas, se há país no mundo
bem posicionado para produzir álcool, metanol, biodiesel,
é o Brasil! Temos tudo para fazer com a maior facilidade.
Eu acho que o Brasil tem um destino bem positivo. Nossa
relação com a China é muito importante,
mas a relação nossa com Angola, por exemplo,
é também importantíssima: sabe onde
é que está o outro lado do petróleo?
Em Angola. E eles vão precisar de exploração
em águas profundas; vão precisar de navios
especializados; e plataformas. Quem faz isso? Só
nós aqui. Além disso, Angola fala português,
seu povo gosta de vir estudar aqui, porque tem mais facilidades.
Moçambique é um pouco isso também.
Então temos, com a África, uma possibilidade
de construir também uma relação muito
importante.
Forja – Nossa revista
chegará a milhares de trabalhadores, e a quatro mil
empresários metalúrgicos. Que mensagem o senhor
daria para eles?
Lessa – Para os operários metalúrgicos
ligados direta ou indiretamente à construção
naval, eu daria uma mensagem de forte otimismo. Este é
um setor que, mesmo com o Brasil, nesse momento, vivendo
dificuldades, tem cada vez mais tendência a se afirmar.
Além da indústria do petróleo (construção
de petroleiros, navios, plataformas), teremos que refazer
a Marinha Mercante, e a Marinha de cabotagem, e uma frota
de pesca oceânica. Os metalúrgicos brasileiros
do setor têm que estar atentos, ter uma postura vigilante,
e podem confiar que o setor vai prosperar. Quanto aos empresários
– os pequenos e médios estão se mexendo.
Aqui no banco, no ano passado, tiveram um aumento de 22%.
Este ano, esperamos um aumento de 35% nas operações
conosco. As grandes empresas, até agora, estão
tímidas. O que diríamos – que os empresários
se preparem, porque o País vai dar um salto para
a frente. É bom, pelo menos, ter os projetos prontos.
Forja – O Rio poderia
formar um projeto comum de desenvolvimento, envolvendo empresários,
governos e trabalhadores/sindicatos?
Lessa – Tenho saído por aí defendendo
certa idéia, que não é nova, é
muito singela mas muito difícil, porque é
um pouco o drama do governo federal. A população
brasileira não quer mais inflação.
Se a inflação começa a subir, a população
fica nervosa. E também o governo, e o mercado. Isso
gera uma timidez no governo: segura a taxa de juros alta,
segura os gastos, mas com isso segura o desenvolvimento.
Estou absolutamente convencido de que a questão da
estabilidade tem que gerar um diálogo forte entre
os sindicatos (as centrais, inicialmente) e os empresários.
Centro desse diálogo: estabilidade econômica.
Significa que as empresas têm que resistir às
pressões altíssimas dos custos. Se um setor
começa a empurrar os custos para a frente, os empresários
têm que resistir, fazer escândalo, dizer “não
pactuamos com isso”, resistir etc. E, ao mesmo tempo,
as centrais sindicais têm que dizer “nós
não empurraremos o salário pra frente: só
negociaremos salários em cima de grandes produtividades”.
E as empresas: “Não remarcaremos preços”.
É um espécie de pacto – o Tarso Genro
chamava isso de “consertação”.
Isso é muito fácil de falar e muito difícil
de fazer. Acho, e vou dizer com o coração,
que os sindicatos brasileiros, principalmente as centrais,
estão tendo com essa questão uma percepção
cada vez mais inteligente e responsável. Digo pelo
seguinte: aqui no BNDES eu administro o Fundo de Amparo
ao Trabalhador, o FAT. A gente paga aos trabalhadores TJLP.
Eu conversei com as centrais sindicais e todas elas me autorizaram
a pedir ao Banco Central que reduza o valor. Porque os trabalhadores
sabem que gerar emprego beneficia a economia como um todo.
Sabe quem ficou tímido em me apoiar? Os empresários.
Eu acho que a gente tem que começar a discutir em
cima de questões localizadas. Construir experiências
parciais de acordos. Eu acho que os dirigentes sindicais
brasileiros têm hoje um profundo senso de responsabilidade
em relação ao futuro do País. Eu não
estou falando isso por vocês serem metalúrgicos.
Eu acho que tem uma maturidade dos sindicalistas que é
uma coisa muito importante. E acho que vocês deveriam
forçar os empresários para vir conversar sobre
questões como essa: vamos juntos nos esforçar
para baixar a taxa de juros nos segmentos que são
importantes para a vida brasileira. Para isso, o empresário
tem que dizer o seguinte: não vamos ficar remarcando
preços. O que acontece é o seguinte: a economia
esquenta um pouco, e eles começam a remarcar preços.
Aí o que os sindicatos têm que fazer? Correr
atrás de aumento, para repor a inflação.
Aí o governo fica com a bola de neve, e recua e tranca
a economia. Esse pacto entre empresários, governo
e trabalhadores é muito importante, e vocês,
trabalhadores, podem desempenhar um grande papel no processo.
Forja – Além
da indústria naval e do petróleo, o que os
metalúrgicos do Rio podem esperar?
Lessa – Vocês pegam também o ramo da
siderurgia, não é? Pois é bastante
provável que surja uma grande siderúrgica
no Rio de Janeiro. Mas não é para amanhã.
É uma coisa que virá. Enquanto que a construção
naval é para ontem. Se a construção
civil for aquecida no Rio, os metalúrgicos serão
beneficiados. Por exemplo, na fabricação de
janelas e portas de alumínio, dobradiça, parafuso,
prego, elevadores. Há uma quantidade enorme de pequenas
e médias empresas que estão se movimentando,
mas não sei quais são metalúrgicas.
O que entendo bem são as cadeias produtivas. Por
exemplo: com a construção de navios, se precisará
de motores auxiliares. Então este mercado vai crescer,
atingindo a indústria de metal-mecânico.
Forja – Uma pergunta
para o professor Lessa, e não para o presidente do
BNDES: como o senhor vê a ascensão do Lula,
ele que não é apenas um representante do nosso
povo, mas o próprio povo?
Lessa – Eu sempre digo que o Brasil tem histórias
espantosas. Por exemplo, Brasília. Quando Brasília
foi feita, diziam que tava no cerrado, e isso não
servia para nada. Que a estrada Belém-Brasília
era pra transportar coisa nenhuma de lugar nenhum para outro
lugar nenhum. Hoje tem trinta cidades com cem mil habitantes
ou mais na Amazônia Meridional e no Centro-Oeste.
Brasília está entre três milhões
de habitantes. Outro espanto é a Petrobrás.
E outra história de espantar é o Lula. Quando
assumiu, ele disse: É o primeiro diploma que recebo:
o de presidente da República. Eu acho isso um negócio
deslumbrante. Realmente muito importante, como demonstração
para esse país. Eu pessoalmente acho que o Lula tem
que ser preservado, porque ele é uma referência
para a juventude e para o povo brasileiro. Digamos assim:
o Lula é maior até do que seu governo. Vou
dizer mais: eu não sou do PT, não.
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