“Angola
está em festa”
Martinho da Vila - Cantor, compositor,
escritor
O
país comemora desde o recente novembro
passado, 30 anos de Independência e três anos
de paz com o fim das lutas internas. Para completar
a felicidade, vai pela primeira vez, disputar a Copa do
Mundo com o seu alegre futebol. Os “Palanacas Negras”
como são chamados os craques da seleção
deles estão eufóricos com a possibilidade
de jogar com os nossos ronaldos. Eles, que estavam
acostumados a torcer pelo Brasil, e eu, em todos os sentidos,
por eles. Vou estar lá no dia 12 de janeiro para
participar de uma grande festa em homenagem ao meu amigo,
o compositor Elias Dia Kimuezo, uma espécie de Dorival
Caymmi de Angola. O evento será promovido pelo governo
e o presidente de Angola José Eduardo dos Santos,
que foi músico e tocou no passado com Elias, vai
estar presente. Espera-se que ele quebre o protocolo e pegue
o violão como nos velhos tempos.
As boas notícias remexeram
as minhas lembranças. Quando menino, sonhei que um
dia iria à África. E confundia África
com Angola. Para mim, Angola era toda a África e
a África toda Angola. Luanda era Aruanda (lugar de
onde veio a Kianda, nossa Iemanjá) e outros Orixás
da Umbanda cantados nas zuelas (cantigas) de um terreiro
próximo ao barraco onde eu morava na Serra
dos Pretos Forros, na Boca do Mato, no Rio de Janeiro. Estou
falando de seis décadas passadas, quando eu tinha
sete anos.
Pelas escolas que passei, nunca
se falou no continente africano e minhas dúvidas
persistiram por muito tempo. Estudei sobre a história
dos gregos e romanos, da América, decorei os nomes
das capitais européias e sabia tudo sobre os reis
de Portugal. Quanto à África nada. Tinha a
impressão de que a África era um lugar sem
passado, sem história. Uma grande floresta onde nativos
eram caçados e trazidos nos navios negreiros para
o Brasil.
Como sempre gostei de ler e pesquisar,
na adolescência consegui um mapa da África
e fui ver logo em que parte ficava Angola, sem imaginar
a possibilidade de um dia pisar lá. Um sonho que
parecia impossível, pois nunca tinha ouvido falar
de alguém que houvesse visitado a terra dos meus
ancestrais, a Rainha Ginga e de onde presume-se que
tenha vindo Zumbi dos Palmares.
Me tornei artista e fui convidado
por um empresário português para fazer um show
em Angola. Receberia um pequeno cachê e um único
bilhete ida e volta. Nem acreditei quando as passagens chegaram
e lá fui eu, sozinho.
O primeiro show foi no N´gola Cine, lugar só
de negros. Era 7 de setembro de 1971, Dia da Independência
do Brasil e eu falei de liberdade cantando os versos: “Vai
ter que amar a liberdade, só vai cantar em
tom maior.” Eu desconhecia o que se passava por lá.
E meu canto causou uma grande confusão, como está
narrado no meu livro “Kizombas Andanças e Festanças”.
A palavra liberdade era proibida. Mais tarde soube que a
PIDE, organização policial política
portuguesa, uma espécie de Dops do tempo da ditadura,
prendeu os mais exaltados e queria me prender também.
Por conta disso os contratantes
recomendaram que eu não saísse do hotel, mas
influenciado por pessoas que conhecí, fui parar no
Samizanga, uma favela que tinha ou ainda tem o Kudissanga
Kua Makamba (uma tendinha) para onde fui levado. Aí
soube que eles estavam em guerra pela Independência
e conheci alguns revolucionários.
O segundo espetáculo foi no Cine Avis, hoje Karl
Marx, um show fechado para a elite de maioria branca, com
a recomendação de não falar na Independência
do Brasil. A negrada compareceu em peso mas ficou do lado
de fora. Com muita dificuldade, consegui colocar apenas
alguns poucos para dentro do teatro.
De volta ao Brasil, pude falar para
a imprensa sobre o MPLA (Movimento Popular pela Libertação
de Angola) e denunciar o sofrimento daquele povo após
truculentas lutas internas. Gravei o LP “Origens”
onde interpretei canções revolucionárias
como: o Som Africano e o Munami Zeca Aie. E a partir daí,
estive por lá muitas outras vezes durante as guerras
de independência e me tornei um angolano, uma espécie
de embaixador informal, assessorando empresários
e dirigentes que vinham ao Brasil pois aqui, naquela época,
não tinha nenhuma representação, nem
consulado ou embaixada.
Retornei
a Angola quatro anos após a Independência,
em 1979 na caravana do Projeto Kalunga, que levou vários
artistas brasileiros para apresentar-se lá. Posteriormente,
em 1982, trouxe o Canto Livre, e dirigi um show do primeiro
grupo de artistas angolanos vindo ao Rio para uma apresentação
na Sala Cecília Meireles. Foi emocionante e muita
gente chorou ao ouvir Mestre Geraldo, um velhinho tocando
sanfona e cantando no encerramento os versos do poeta angolano
Valdemar Bastos, que só agora tornaram-se realidade:
“Xê, menino, posso morrer. Já vi Angola
Independente”.
Boa sorte, minha Angola, e um candando, isto é em
Kimbundo, um grande abraço.
Boa sorte , meu Brasil, e a todos os quilombolas. Valeu
Zumbi!
Martinho
da Vila.
Cantor, compositor, escritor.
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