Entrevista:
Aldo Rebeloi por por Claudia Dias
Um comunista na Presidência
da Câmara
Primeiro
comunista eleito para a Presidência da Câmara,
o Deputado Aldo Rebelo assumiu o posto em meio a uma grave
crise, que se transformou em um de seus maiores desafios
FORJA:
Como o senhor avalia a importância da sua eleição
para a Presidência da Câmara, no contexto histórico
do Partido Comunista?
Rebelo: A participação dos comunistas nas
instituições brasileiras teve altos e baixos.
Em 1948, por exemplo, foram cassados os mandatos dos parlamentares
comunistas eleitos três anos antes para a Assembléia
Constituinte (Senador Luis Carlos Prestes e 14 deputados
federais, entre eles, Carlos Marighella, João Amazonas
e Maurício Grabois). Isso ocorreu porque a justiça
eleitoral suspendeu o registro do Partido Comunista do Brasil.
De modo que, minha eleição, é resultado
de um processo longo defendido pelo partido e que representa
uma vitória das forças democráticas,
progressistas e patrióticas do País. Também
é fruto de uma recomposição de forças
dos partidos dentro da Câmara dos Deputados.
FORJA: Quando assumiu, o
senhor tinha a exata dimensão dos problemas que iria
enfrentar?
Rebelo: Os problemas enfrentados pela Câmara são
sentidos pelos 513 deputados eleitos. Nesse momento, a Câmara
enfrenta o desafio de manter sua integridade e a confiança
da população, para superar a crise política
vivida, manter a estabilidade econômica conquistada
pela população, com a inflação
sob controle, e aumentar os investimentos na área
social e de infra-estrutura. É claro que, ao presidente,
cabe tomar decisões nem sempre fáceis, muitas
vezes controversas, mas essa é a essência da
democracia: fazer uma composição de forças
com o objetivo de favorecer a maioria da população.
FORJA: Como pretende ajudar na recuperação
da imagem pública da Câmara, depois dos escândalos
de corrupção e das CPIs em curso?
Rebelo: Com muito trabalho, discutindo e votando matérias
importantes para a população. Retomamos as
reuniões semanais com o colégio de líderes,
que reúne os líderes de todos os partidos,
para construir a agenda de votações do plenário.
Isso acelera o processo de entendimento e de votação.
O que precisa é criar um clima político saudável
para a negociação de matérias importantes
para a população brasileira.
FORJA: Na Câmara, qual é
a pauta, em discussão hoje, de maior relevância
no que diz respeito à questão econômica
do país?
Rebelo: A proposta da Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas,
que aumentará o dinamismo desse setor, que é
altamente empregador. Temos também a Super-Receita,
que melhora a qualidade da fiscalização e
da arrecadação, o que abre espaço para
a redução da carga tributária.
FORJA: Na agenda do movimento sindical,
existe uma mobilização para a segunda marcha
nacional pela valorização do salário
mínimo, que reivindica a elevação do
piso nacional para R$ 400. Quais as possibilidades de aprovação
desse valor?
Rebelo: As centrais sindicais estão dedicadas a negociar
com o governo a fixação do piso salarial.
A vontade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
é dar o maior reajuste possível, e o deputado
Carlito Merss (PT-SC), relator do projeto de lei do Orçamento
da União de 2006, chegará a um valor que possa
ter apoio da sociedade.
FORJA: Muito se fala em uma reforma
trabalhista. Existe realmente uma pauta específica
sobre este assunto? Se existe, quais os principais pontos
de que ela trata?
Rebelo: Existem matérias para alterar a Consolidação
das Leis Trabalhistas em tramitação na Câmara,
mas as mudanças só serão levadas a
cabo se houver mobilização dos deputados para
votar, porque a pauta de votação está
sendo feita de acordo com a vontade dos líderes.
FORJA: Há uma previsão
para essas votações?
Rebelo: Nesse momento, a prioridade da Câmara para
o final de 2005 é a votação da Lei
Geral das Micro e Pequenas Empresas e o Orçamento
da União de 2006, além dos processos de cassação
dos mandatos de deputados envolvidos em irregularidades.
Mas as mudanças na legislação trabalhistas
podem ser incluídas no ano que vem, se tiverem apoio
dos líderes.
FORJA: Sobre a reforma sindical,
a bancada dos trabalhadores tem um consenso do que deve
ser a nova estrutura, com o objetivo de fortalecer o movimento
sindical. Esta posição, supera os pontos polêmicos
como a unicidade, a contribuição compulsória
e a OLT. Há, no entanto, contraposição
por parte da bancada patronal, que tem sua representação
no Congresso. De que forma a solução desse
conflito poderia trazer uma vitória para os trabalhadores?
Rebelo: Somente com um diálogo profundo e uma negociação
extensa. As relações que se estabelecem entre
patrão e empregado são historicamente complexas,
mas já atingimos um grau de entendimento que permite
prever um acordo sobre a modernização das
leis trabalhistas.
FORJA: O senhor acredita que essas
votações possam ficar comprometidas pela proximidade
de um ano eleitoral?
Rebelo: O ano eleitoral, tradicionalmente, diminui as atividades
parlamentares em Brasília, pois os deputados e senadores
precisam estar em seus estados para mobilizar a sociedade
para as eleições. Mas vamos tentar conversar
com todos os partidos para que o trabalho parlamentar não
fique mais atrasado.
FORJA: Como o senhor avalia hoje
essa crise política?
Rebelo: O Brasil vive uma crise política que, ao
contrário das aparências, deve ser enfrentada
pela sociedade com mais confiança no País.
Valorizar as conquistas, acima e ao largo das deformidades,
que são infinitamente inferiores às nossas
virtudes, é uma âncora ideológica e
sentimental que nos dá um caminho para superar as
dificuldades. É preciso ter perspectiva para observar
que, em cinco séculos, construímos uma civilização
única, reconhecida no Exterior como uma grande obra
da Humanidade.
FORJA: Há um sentimento de
que não é possível colocar os erros
embaixo do tapete. O senhor concorda?
Rebelo: A Câmara é uma instituição
especial. Qual outra instituição conseguiria
expor seus erros e defeitos e encontrar soluções
para se manter em pé, como a Câmara está
conseguindo? Somos uma Casa transparente, em que as deformações
são reveladas e corrigidas na frente de toda a imprensa
e da população. Isso nos dá a certeza
de que estamos no caminho do aperfeiçoamento, para
que os erros que estão sendo apurados nas Comissões
Parlamentares de Inquérito (CPIs) deixem de ocorrer.
FORJA: Que desdobramentos ela ainda
pode ter para o Governo Lula?
Rebelo: O pior desdobramento que pode haver é a disputa
política chegar a um ponto de exacerbação
que impeça a votação de matérias
importantes para a sociedade. Por exemplo, como ocorreu
com a medida provisória da Super-Receita, em que
ela perdeu a validade por falta de acordo para ser votada
no Senado. A disputa política é legítima,
faz parte da democracia e representa os diferentes setores
que compõem a sociedade. Mas ela não pode
ser levada às últimas conseqüências,
pois inviabiliza o dia-a-dia do País.
FORJA: Qual deve ser o efeito disso
nas próximas eleições?
Rebelo: Corre-se o risco da sociedade, que é soberana
na hora do voto, cansar de todas essas posições
extremadas. Mas ainda está muito cedo para fazer
previsões.
FORJA: Como o senhor analisa a proposta
de emenda à Constituição (PEC) 548/02,
que prevê o fim da verticalização das
coligações partidárias?
Rebelo: O princípio da verticalização
é interessante porque prevê uma coerência
nas coligações de um partido para a eleição.
Mas num País como o Brasil, com diferenças
regionais tão marcantes, é realmente muito
difícil um partido ser tão homogêneo
a ponto de conseguir fazer coligações com
os mesmos partidos nos 27 estados brasileiros. Mas o fundamental
é que os partidos tenham clareza sobre o que querem,
pois só assim a matéria poderá ser
votada.
FORJA: O senhor é autor de
um projeto em defesa da Língua Portuguesa. Como se
encontra esse projeto, atualmente?
Rebelo: Esse projeto está em tramitação
na Comissão de Constituição e Justiça
da Câmara.
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