Entrevista
O presidente Maurício
Ramos, em entrevista ao Site do Sindimetal,
fala sobre recuperação do emprego, mobilização
por melhores salários e condições de
trabalho e início de recuperação da
economia. Acompanhe.
FORJA - Como você vê
esse momento de recuperação da economia para
os metalúrgicos, com o crescimento da produção
em setores importantes da indústria, inclusive com
a contratação de trabalhadores?
Maurício Ramos -
Vejo como resultado de um esforço concreto, importante
e decisivo do governo do presidente Lula em desenvolver
o País e criar empregos. Nós já reunimos
em nossa base mais de 200 mil trabalhadores empregados nas
industrias e fomos reduzidos a menos de um quarto, ou seja,
menos de 50 mil metalúrgicos. Esse crescimento vem
no período mais importante da vida da categoria,
do início da campanha salarial. Ajuda a alimentar
a esperança do trabalhador desempregado a recuperar
o seu emprego. E a despertar os ânimos dos que estão
trabalhando, para uma grande mobilização por
melhores salários e condições de trabalho.
Esta é a dimensão e a importância para
nós metalúrgicos, deste início de recuperação
da economia.
FORJA - Antes, qual era o
foco principal da luta do Sindicato?
MR - Nos últimos
vinte anos o foco principal da categoria foi de resistir
ao desemprego. Foram 150 mil homens e mulheres (destas,
a maioria negra e mãe solteira), demitidos. Resistir
às políticas neoliberais dos governos que
se sucederam. A luta tornou-se mais difícil a partir
dos governos de Collor de Melo e de FHC de triste memória.
A política desses governos além de levar a
quebradeira e a falência das empresas, por vezes de
todo um seguimento, como ocorreu com a indústria
naval e de informática, achatou enormemente os salários
e precarizou covardemente os direitos trabalhistas. Tudo
a serviço dos lucros dos banqueiros, do FMI, dos
grandes grupos econômicos estrangeiros.
FORJA - Partindo da visão
de que o governo Lula se esforça em desenvolver o
Brasil, qual é o foco hoje da luta dos trabalhadores?
MR - Entendo, que,
com a nova realidade política, advinda de um novo
governo de caráter democrático e progressista,
o foco principal da ação dos trabalhadores
deva ser a luta pelo desenvolvimento econômico e social
do País, por emprego com a valorização
do trabalho e distribuição de renda. E a busca
de uma ampla união de forças, de um amplo
pacto nacional para construir e implantar no País
um projeto nacional desenvolvimentista.
FORJA - Mais o governo lula
representa a mudança!
MR - Sim! Permita
dizer o seguinte: a vitória de Lula à Presidência
da Republica tem um significado histórico e dimensão
que ultrapassam as fronteiras nacionais. Os trabalhadores
e povos de todo o mundo se reanimaram, renovaram suas forças
e convicções de que a luta é necessária
e é possível vencer e deslocar do poder político
suas elites exploradoras, em geral ligadas ao império
americano. Pela primeira vez na história do Brasil,
forças sociais, compostas por trabalhadores, pelas
camadas populares e médias, como o PT e o PC do B,
assumiram o governo da republica. Importante destacar, que
assumiram num momento de uma grande ofensiva política,
diplomática e bélica dos EUA no mundo. Ocupação
do Iraque, do Paquistão, bloqueio econômico
a Cuba socialista, varias tentativas de golpe na Venezuela
e etc.
FORJA - Se o governo Lula
representa a mudança, por que você fala na
busca de uma união de forças para construir
e implantar no País um projeto Nacional desenvolvimentista?
MR - Lula venceu
as eleições. Mas as força que o levou
a Presidência da Republica, com um programa democrático,
nacional e popular, voltado para a retomada do desenvolvimento,
a geração de empregos e a distribuição
de rendas, não elegeram a maioria dos governadores,
dos deputados e senadores. E, como para governar até
um Sindicato é preciso maioria, Lula expressando
a inteligência e a sagacidade de sua classe e do seu
povo sofrido conseguiu conquistar esta maioria na câmara
e no senado, trazendo para a base do governo partidos de
setores das classes dominantes, como o PMDB, PTB entre outros.
E nesta nova conformação de um governo de
coalizão, há aqueles setores que defendem
a continuidade da velha agenda neoliberal, da velha e surrada
política econômica. E aqueles, liderados pelo
presidente Lula, que defendem um novo projeto nacional desenvolvimentista.
FORJA - E como os metalúrgicos
se posicionam diante desta realidade?
MR - Somos solidários
com todos aqueles que dentro do governo, no parlamento,
nas fábricas, no campo e praças de nosso País
se esforçam em firmar, construir uma nova convicção.
A convicção de que o Brasil necessita de um
novo projeto nacional desenvolvimentista. A exemplo do que
fez Getúlio Vargas em sua época, resguardada
a crítica a forma ditatorial de uma das fases do
seu governo, implantou um projeto de desenvolvimento que
dentre outras iniciativas, criou a Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN) e induziu o desenvolvimento industrial num
País eminentemente agrário. Estamos convencidos
ser este o ponto de partida para a solução
dos graves problemas de toda a ordem que o presidente Lula,
os trabalhadores e o nosso povo herdou: dependência
externa; juros elevados; desemprego e subemprego em níveis
recordes; um grande exército de deserdados; extensão
inédita do nível de violência, assim
como do nível de desindustrialização
etc. Fenômenos que se abateram sobre o Brasil e todos
os paises da América latina que foram submetidos
à política neoliberal globalizantes impostas
pelo FMI.
FORJA - Concretamente que
iniciativas o Sindicato tomou ou vem tomando nesta luta
por desenvolvimento e por empregos?
MR - Os metalúrgicos,
através das comissões de fábricas e
do seu Sindicato, vêm há muito tempo empreendendo
ações concretas na busca do desenvolvimento
e por empregos. O exemplo que chama maior atenção
é o da industria naval. Juntos com a CUT, os Sindicatos
dos marítimos, metalúrgicos de Angra dos Reis,
Niterói, a comissão de fábrica do estaleiro
EISA, Sindicatos patronais da indústria naval e da
marinha mercante, governos estadual e federal, parlamentares
como Aquilar, Edmilson Valentim e Jandira Feghali, do PC
do B, Ricardo Maranhão, do PSB, Carlos Santana e
Luís Sergio, do PT, conquistamos êxitos. Sendo
os maiores deles, a reabertura de importantes e grandes
estaleiros. E, com o advento do governo Lula, a conquista
da construção pela primeira vez no País
de toda a estrutura de uma plataforma da Petrobrás,
a P-51, cujo casco será construído na NUCLEP,
no município de Itaguaí. Faço questão
de destacar o papel desempenhado pelo ex-governador Anthony
Garotinho, da governadora Rosinha Matheus e do seu secretário
de estado da Indústria Naval, Petróleo e Energia
Vagner Victer nestas vitórias.
FORJA - Tem algum outro exemplo
que você queira citar?
MR - Sim.Também
é importante citar exemplos vitoriosos como o da
Companhia Comércio e Construções –
CCC. Empresa que chegou a demitir quase todos os empregados
e ressurge. E já tem mais de 400 trabalhadores. Todos
com sua carteira assinada. Tendo à frente a Comissão
de Fábrica e o Sindicato. Outro exemplo foi o da
EBSE, quando o grupo MPE assumiu a empresa numa situação
falimentar, de total endividamento, inclusive com salários
atrasados, trabalhadores demitidos sem ter recebido suas
quitações. Hoje a empresa vive outra situação.
Tendo o Sindicato e a comissão de fabrica jogado
importante papel. Hoje o Sindicato e a Comissão de
Fábrica da Cimobrás lutam para soerguer aquela
empresa.
FORJA - Como dar maior conseqüência
a esta luta?
MR - Temos
sido solidário ao presidente Lula em todos os momentos
de dificuldades. Percebemos claramente que o presidente
vive um dilema. Tenta conciliar a política macroeconômica
imposta pelo FMI de elevado superávit fiscal, de
juros altos, de liberdade para o capital motel que entra
e sai do país ao bel prazer; com decisões
de uma política de desenvolvimento, a exemplo da
determinação à Petrobras de construir
suas plataforma no país; a Transpetro que lançou
um grandioso programa de construção de vinte
e dois petroleiros e barcos de apoio as plataformas. Entretanto,
estas iniciativas se esbarram no Ministério da Fazenda.
Os vetos à medida provisória 177, que dava
aos estaleiros e à Marinha Mercante condições
de construir e ampliar a frota nacional, são exemplos
didáticos deste dilema. Tem-se demanda, um exército
de trabalhadores desempregados ávidos para trabalhar,
empresários, indústrias e inclusive os recursos.
Mas veta-se os artigos de uma lei que viabilizam investimentos
na produção. E aí continuamos a pagar
mais de 6 bilhões de dólares ano só
com a conta de frete de embarcações estrangeiras.
É preciso destravar os investimentos. Este é
o nó que precisa ser desatado para todos que vivem
do trabalho.
FORJA - Como os metalúrgicos
podem contribuir neste debate?
MR - O
lançamento desta revista, FORJA, integra um conjunto
de esforços e iniciativas para contribuir com este
debate. Temos a honra de inaugurar este primeiro numero
com a entrevista exclusiva do presidente do BNDES, professor
Carlos Lessa e com o artigo do presidente da Assembléia
Legislativa do Estado, Deputado Picianni, entre outros estudiosos
e lideranças políticas. Acreditamos que todo
esse esforço que fizemos, para manter e ampliar postos
de trabalho, foi e é necessário continuar
a fazer. Mais o País precisa de um projeto nacional
desenvolvimentista. Esta união de forças,
patrimônio que construímos na luta em defesa
da industria naval e da marinha mercante, e a frustração
que se abateu sobre os trabalhadores e todos que se dedicaram
na elaboração da medida provisória
177, servem como exemplos de que é possível
e necessário, construirmos um pacto de amplas forças
nacionais. Para atacarmos o cerne do problema: a poderosa
força do capital financeiro internacional, do FMI
que trava o desenvolvimento do País. A qual não
há porque o Brasil se subordinar aos seus ditames.
FORJA - Qual a relação
deste debate com a campanha salarial em curso?
MR - Na Campanha
Salarial do conjunto da categoria, na dos trabalhadores
da estatal Cobra Tecnologia, e também na EMGEPRON
pelo aumento salarial e pelo reconhecimento do Sindicato,
será o momento em que vamos acentuar a luta pela
valorização do trabalho e distribuição
de renda. Isto quer dizer que vamos construir um discurso,
desenvolver argumentos e ações para debater
com os empresários sobre a justeza de nossas reivindicações,
sobretudo, as que tratam do aumento salarial de 15%, do
piso salarial e profissional, do fim dessa excrescência
que é o banco de horas, da redução
da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução
do salário, da participação nos lucros
– PLR, e do direito a creche para a trabalhadora metalúrgica,
entre outras reivindicações.
FORJA - Que mensagem você
dá à categoria neste momento?
MR - A diretoria
já desenvolve esforços para fazer a campanha
chegar a todos os 50 mil metalúrgicos. Para que todos
tenham consciência do momento que o País está
atravessando, do que estamos reivindicando e assumam sua
posição de combate na defesa de nossa pauta
e do Sindicato. Por que, o mais forte e poderoso argumento
neste debate que estamos iniciando com os patrões
é o da mobilização. Nenhum trabalhador
ou trabalhadora metalúrgica que sofre com essa exploração
e arrocho que estamos submetidos, com esse banco de horas
que nos escraviza, tem o direito de alimentar ilusões,
de que vamos vencer sem lutar. A nossa força está
no nosso número, na nossa organização
no chão da fabrica e, sobretudo, na nossa união.
Confiante na participação de vocês,
e que iremos realizar uma campanha salarial vitoriosa. Um
abraço aos companheiros e companheiras. Nos vemos
nas portas das fábricas e nas assembléias
no Sindicato.
|